Mostrando postagens com marcador Cidades. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cidades. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

A fotografia revela o que os urbanistas latinos oculta

"Urbes Mutantes", em Nova York, mostra as transformações e os problemas das cidades por fotógrafos de rua, artistas e fotojornalistas
por Francisco Quinteiro PIres — publicado 31/08/2014 09:40, última modificação 31/08/2014 10:39
Alberto Korda
Alberto Korda
"O Quixote do poste de iluminação", de Alberto Korda
Quinze minutos após iniciar um passeio pela Urbes Mutantes: Latin American Photography 1944-2013, o curador Alexis Fabry parou diante de duas fotografias de Miguel Rio Branco. Ele queria que os visitantes prestassem atenção ao conteúdo chocante das imagens do brasileiro. Colocadas lado a lado e com o título Mad Dog, Maciel (1980), elas exibem dois seres sujos e deitados no chão. “Esse díptico”, escreve o crítico David Levi Strauss, “relaciona um homem morto ou dormindo num pavimento com um cachorro, ambos na mesma posição e condição, a formar uma equação abjeta”. De acordo com Fabry, a representação fotográfica que equipara um ser humano a um animal revela a rua como um espaço onde a miséria não se disfarça.
Urbes Mutantes, em cartaz até setembro no International Center of Photography (ICP) de Nova York, mostra as transformações e os problemas das cidades latino-americanas em cerca de 200 imagens tiradas por fotógrafos de rua, artistas e fotojornalistas. Para Fabry e María Wills, responsáveis pela montagem a partir da coleção particular de Leticia e Stanislas Poniatowski, “cada imagem tem uma ideo-
logia” e, quando adicionada ao conjunto, é capaz de exibir a diversidade urbana do continente americano. As imagens selecionadas mostrariam as diferenças entre oito países da América Latina, apesar do passado colonial comum e da desigualdade econômica onipresente.
Os espaços urbanos de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, México, Peru e Venezuela foram, entre os anos 1940 e 2000, uma plataforma para protestos sociais contra governos autoritários, um palco para a cultura popular e a face pública da pobreza. As fotos preservam a memória fugidia desses lugares fadados à reconstrução inacabada ou à ruína cíclica, em contraste com “o moderno espírito público direcionado à criação de cidades como símbolos do progresso e do triunfo do capitalismo”, segundo Fabry e Wills.
O ensaísta uruguaio Ángel Rama (1926-1983) entendeu a urbanização latino-americana como um projeto de dominação justificado por ideologias que uma minoria de intelectuais formulou nos últimos cinco séculos. “Desde a remodelação de Tenochtitlán após a sua destruição por Hernán Cortés em 1521 até a inauguração em 1960 do sonho de urbe de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, a cidade latino-americana tem sido um parto da inteligência”, escreveu Rama no livro La Ciudad Letrada (1984). “Ela esteve inscrita num ideal da cultura universal como a representante de uma ordem social e encontrou no novo continente o único lugar propício para se tornar realidade.”
Rama relata em La Ciudad Letrada que o plano oficial era substituir “as cidades orgânicas” da Península Ibérica medieval pelas “cidades organizadas” no Novo Mundo, onde a razão pautaria a distribuição do espaço e um estilo de vida. Uma paisagem urbana repetitiva e planificada demandaria de seus habitantes o cumprimento desse desejo de ordem. O projeto de colonização, sugere Rama, desrespeitou singularidades. A abstração, a racionalização e a sistematização defendidas pelas Coroas espanhola e portuguesa se oporiam à expressão criativa das culturas locais. Essa sociedade hierarquizada promoveu uma realidade à parte nas Américas. Desse esforço do Estado resultou a exclusão em termos de classe e de raça.
Fabry e Wills dedicaram The Forgotten Ones, uma das nove seções de Urbes Mutantes, aos excluídos das cidades latino-americanas. Fotógrafos como Héctor García (mexicano), Adriana Lestido (argentina), Sergio Larraín (chileno), Roberto Fontana (venezuelano) e Miguel Rio Branco representam o engajamento social iniciado por William Henry Fox Talbot (1800-1877), autor de retratos de trabalhadores e marginalizados. “A qualidade transparente do recurso fotográfico, desenvolvido no século XIX como uma ferramenta para a documentação objetiva, desafiou a hipótese de que a representação deveria estar vinculada a ideais clássicos de beleza materializados nas vidas das classes mais ricas”, dizem os curadores.
Os fotógrafos selecionados registraram os esquecidos. Essa atitude gerou discussões sobre a espetacularização da miséria, lembra Wills. “Na América Latina, vários colóquios abordaram essa questão e um dos pontos de vista mais fortes percebeu os fotógrafos que não eram ativistas ou participantes de movimentos sociais como exploradores dos oprimidos”, diz a curadora aCartaCapital.
Urbes Mutantes ignora os mais abastados. Os visitantes da exposição do ICP aprendem pouco sobre os hábitos e as fisionomias das elites latino-americanas. A mexicana Yvonne Venegas representa uma das exceções. Entre 2004 e 2010, Venegas acompanhou o dia a dia de María Elvira de Hank, filantropa e esposa do milionário Jorge Hank Rhon, para entender como os ricos aproveitam seus privilégios. “Por que não há mais imagens reveladoras das elites? Os fotógrafos dos anos 1960 e 1970, décadas às quais pertence a maioria das imagens, não estavam interessados em retratar os mais ricos. Por vezes, eles nutriam repulsa a essa possibilidade”, Wills explica. “As elites aparecem em Urbes Mutantes de maneira indireta quando Pedro Meyer (mexicano) fotografa as sobras de uma refeição feita por políticos num restaurante ou Pablo López Luz (mexicano) retrata as fachadas das casas dos bairros mais ricos. Incluímos uma visão mais representativa das raças e classes sociais nas Américas. Evitamos antagonizá-las.”
A primeira seção de Urbes Mutantes chama-se Living Walls (Paredes Vivas). “Aqui a câmera preserva momentos importantes da vida urbana, como protestos contra desmandos políticos, projetos urbanos inacabados e marcos arquitetônicos”, afirma Wills. Ao fotografar grafites, cartazes e placas, Fernell Franco (colombiano), Yolanda Andrade (mexicana), Sameer Makarius (argentino), María Cecilia Piazza (peruana) e outros transformaram esses escritos públicos em metáforas dos sentimentos dos moradores urbanos, como o cinismo, a frustração, a raiva e o humor. Rama associou a comunicação verbal do povo nas paredes citadinas a um desafio à autoridade das elites intelectuais como as únicas intérpretes da realidade.
Urban Geometries (Geometrias Urbanas) trata da organização espacial e estruturas físicas das cidades. Fabry e Wills escolheram trabalhos que exploraram luzes, sombras e reflexos para abordar de modo abstrato a expansão das metrópoles dos anos 1940 em diante. Segundo a curadoria, as imagens de Paolo Gasparini (foto ao lado) (venezuelano), Lázaro Blanco (mexicano), Armando Salas Portugal (mexicano) e Rosario López (colombiana) comprovam o ecletismo arquitetônico da América Latina, entre construções planejadas e desordenadas. Urban Geometries concentra o maior número de fotógrafos brasileiros: José Yalenti, German Lorca, Thomaz Farkas e Geraldo de Barros, todos pertencentes ao Foto Cine Clube Bandeirante.
“Na América Latina, a urbanização deu-se com muita rapidez, o que gerou as paisagens mais intrigantes. O Foto Cine Clube Bandeirante é um dos primeiros no continente a oferecer uma visão menos conservadora e mais autoral da fotografia”, diz Wills. Criado em 1939, o fotoclube paulistano percebeu a imagem como uma obra de expressão artística. “Urbes Mutantes não é uma exposição sobre fotógrafos de rua latino-americanos. Ela trata antes de tudo do impacto das diferentes culturas urbanas sobre o imaginário desses profissionais.” Novos ângulos e formas surgiram para capturar cidades cujas aparências mudavam, enquanto seus problemas essenciais se perpetuavam.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Projeto "Inspira" propõe olhar diferenciado sobre cidades

Iniciativa ocorre no StudioClio a partir das 19h30min

Nova edição do projeto Inspira reunirá publicitários Marcelo Pimentel e Marina Bortoluzzi<br /><b>Crédito: </b> Divulgação / CP
Nova edição do projeto Inspira reunirá publicitários Marcelo Pimentel e Marina Bortoluzzi 
Crédito: Divulgação / CP
O Inspira, projeto concebido pela UP Design e produzido pelo StudioClio, chega ao seu segundo ano propondo um olhar diferenciado sobre as cidades, a identidade urbana, a mobilidade, a arquitetura e os movimentos artísticos. Depois de ter a moda como mote em 2013, o Inspira traz o "Novos Olhares com a Street Art". Na edição de agosto, o projeto recebe como convidados os publicitários Marcelo Pimentel e Marina Bortoluzzi, criadores da maior galeria colaborativa de arte de rua de mundo, o Instragrafite, com mais de um milhão de seguidores. O StudioClio (rua José do Patrocínio, 698) recebe a iniciativa nesta quinta-feira, a partir das 19h30min, em Porto Alegre.  

O Instagrafite, que se iniciou em 2011 como um profile no Instagram, hoje é uma das grandes marcas no universo da street art, participando como curador de festivais e projetos, e propulsor de um intercâmbio multicultural entre artistas. Além disso, tem como estímulo se auto-desafiar constantemente, criando e colocando em prática inovação sob o contexto da arte urbana.

Marcelo e Marina tem mais de 10 anos de experiência no mercado da propaganda. Marcelo, gaúcho de São Leopoldo, é diretor de arte e já trabalhou por diversas agências de publicidade em Porto Alegre, em Buenos Aires e em São Paulo, para clientes como Lojas Colombo, Warner, Discovery, Grendene, Bis e Petrobrás. Marina, de Florianópolis, é planejadora, consultora e pesquisadora de tendências, já morou em Florença, Itália, e depois em Porto Alegre por três anos. Já trabalhou para marcas como Grendene, Grupo Jereissati, Multishow, C&A, Banco Itaú, Google e Coca-Cola. O casal mora em São Paulo há mais de quarto anos e tem o Instagrafite como startup própria fazem quase três anos.

O casal dará destaque para os caminhos que tornam a arte de rua uma ferramenta de inovação, sob uma ótica singular, graças aos projetos do Instragrafite pelo mundo. Os ingressos podem ser adquiridos na página do stúdio pelos valores de R$ 30 para o público em geral, e R$ 20 para professores, estudantes e seniores.

Fonte: Correio do Povo

domingo, 29 de setembro de 2013

Pesquisadores pedem tombamento da residência do artista em Tubarão

A casa do 'Seo' Willy

Ela possui valor cultural inestimável, por isso, deve ser distinguida com sua inscrição no chamado Livro do Tombo, para protegê-la de eventual destruição ou descaracterização


Pesquisadores pedem tombamento da residência do artista em Tubarão Guto Kuerten/Agencia RBS
Casa onde o artista viveu com sua esposa em Tubarão, em Santa CatarinaFoto: Guto Kuerten / Agencia RBS
Volnei Martins Bez, Valmiré Rocha dos Santos e Carlos Rocha*
Desde a morte de Willy Zumblick, em 2008, temos desenvolvido esforços para alertar as autoridades e poderes públicos no sentido da preservação do prédio da casa onde viveu o cidadão e artista famoso de Tubarão.

Elaboramos minuta de projeto de lei, com a devida justificativa e as informações necessárias ao tombamento do imóvel, e o encaminhamos, como forma de impedir a sua derrubada ou mesmo sua descaracterização. Sugerimos que esse procedimento fosse incluído na agenda de atividades destinada às comemorações do centenário de nascimento de Zumblick.

O tombamento constitui-se no ato mais simplificado, porque não requer dispêndio financeiro pelo poder público, considerando que o imóvel permanece sob a propriedade e domínio de quem de direito, podendo, inclusive, ser vendido, alugado, ou utilizado para quaisquer fins.

Ele apenas protege o imóvel contra eventual demolição ou descaracterização. Em etapa seguinte, poderia a Casa de Willy Zumblick vir a ser transformada em local de cultura e saber, prestando-se como abrigo de suas principais obras e ponto de visita obrigatório aos interessados em sua arte, a estudantes, à realização de cursos, palestras e atividades afins, resultando num extraordinário contributo à cultura catarinense.

Notório que órgãos culturais, federais e estaduais, dispõem de recursos, habitualmente não requisitados, para a transformação da velha casa do artista numa fundação e museu.

A casa do "seo" Willy é referência da cidade. Ali viveu a maior personalidade de toda a história tubaronense. Possui valor cultural inestimável, por isso, deve ser distinguida com sua inscrição no chamado Livro do Tombo, para protegê-la de eventual destruição ou descaracterização. Essa providência visa preservar o patrimônio e a memória cultural de Willy Zumblick.

Os bens, que constituem os elementos formadores do patrimônio, são ícones repositórios da memória, permitindo que o passado interaja com o presente, transmitindo conhecimento e formando a identidade do povo. Willy Zumblick construiu e se constitui em parte da história de Tubarão, legando às gerações futuras, um tesouro artístico-cultural e um exemplo de cidadão e cidadania capazes de propiciar o conhecimento e a compreensão da história da sua terra e da sua gente pelas gerações vindouras. A destruição desse bem material, de enorme significado social e cultural, representará o rompimento do conhecimento sobre a vida e a obra do artista e do cidadão.

Além do mais, todos os bens de natureza material e imaterial, de interesse cultural que possuam significado histórico, cultural ou sentimental, e que sejam capazes, no presente ou no futuro, de contribuir para a compreensão da identidade cultural da sociedade que o produziu devem ser preservados. O tombamento seguramente representará benefícios para a cidade. Com a preservação da sua história, pode vir a produzir conhecimentos sobre o artista e a sua cidade; poderá vir a incrementar o processo ensino-aprendizagem dos estudantes, beneficiar o turismo, além de representar, por si, uma relevante conquista.

A legislação especifica que quando um bem material for julgado de relevante interesse cultural para o município, para o Estado e/ou para o país e, especialmente, quando por algum motivo se julgar que o bem pode sofrer qualquer tipo de ameaça, pode e deve ser solicitado o tombamento. É isso o que temos feito. É isso que, novamente, estamos fazendo em nome da memória do "seo" Willy.

* Os autores são pesquisadores da vida e da obra de Willy Zumblick
DIÁRIO CATARINENSE
Fonte: Zero HORA

Professor de arquitetura comenta o movimento pela preservação das casas da Rua Luciana de Abreu


Conjunto localizado no bairro Moinhos de Vento tiveram valor histórico negado e podem ser demolidas.


Professor de arquitetura comenta o movimento pela preservação das casas da Rua Luciana de Abreu Ricardo Duarte/Agencia RBS
Após 11 anos de disputa, decisão judicial de 16 de setembro negou o valor histórico de seis casas construídas na década de 1930 na rua Luciana de Abreu, em Porto AlegreFoto: Ricardo Duarte / Agencia RBS
Com frequência, as questões atinentes ao patrimônio arquitetônico ganham destaque e, pela sua relevância, não dizem respeito apenas àqueles envolvidos por dever de ofício. E é isso o que está ocorrendo em Porto Alegre, resultado da ameaça de demolição de um significativo conjunto de casas localizadas na Rua Luciana de Abreu, no bairro Moinhos de Vento.

Trata-se de um caso particular, mas que envolve questões que o transcendem e como tais devem ser tratadas. E é isso que me proponho fazer, sobretudo, a partir daquilo que há quase um século foi dito pelo austríaco Max Dvorák (1874 – 1921), historiador da arte da Escola de Viena, no seu livro de 1916 Catecismo da Preservação dos Monumentos, escrito “a partir do ponto de vista de quem convive com problemas relativos ao patrimônio, identificando uma grande quantidade de atitudes prejudiciais à sua preservação”. No capítulo intitulado Perigos que Ameaçam os Antigos Monumentos, ele afirmava então que eram ainda consideráveis esses riscos, cujas origens estariam: na ignorância e na negligência; na cobiça e na fraude; nas ideias equivocadas a respeito do progresso e das demandas do presente; na busca descabida de embelezamento e renovação; na falta de uma educação estética, ou numa educação estética equivocada.

Malgrado o tempo decorrido da época em que foram formuladas essas denúncias, e mesmo considerando que desde então, inclusive no Brasil, avanços significativos ocorreram no que concerne à preservação da arquitetura de interesse patrimonial, os males ali elencados, e suas origens, continuam atuais. E são elas que precisam ser combatidas, seguindo os exemplos deixados por todos aqueles que a isso dedicaram parte significativa de suas vidas. Entre eles, na França do século 19, estava o romancista Victor Hugo, que, por meio do manifesto Guerra aos Demolidores, escrito em 1825, já denunciava como vandalismo aqueles atos que atingiam, por vezes de morte, o patrimônio arquitetônico, aí incluindo os imóveis de propriedade privada. “Chegou o momento de não mais permitir a quem quer que seja que permaneça em silêncio, dizia ele ... É preciso fazer parar o martelo que mutila a face do país... Quaisquer que sejam os direitos da propriedade, a destruição de um edifício histórico e monumental não deve ser permitida... Há duas coisas em um edifício: seu uso e sua beleza. Seu uso pertence ao proprietário, sua beleza a todo mundo”. 

Voltando ao que afirmava Dvorák, recorde-se que já no início do século 20, “as enormes cidades configuravam-se cada vez mais como centros econômicos, nos quais a maior parte do que havia restado do passado foi sacrificada sem piedade, em nome das exigências econômicas: meios e vias de transporte, casas comerciais e escritórios... Essa transformação foi tão rápida que, muitas vezes, não se teve tempo ou iniciativa para conferir aquilo que era realmente urgente. Ao contrário, destruíram-se cidades cega e aleatoriamente para substituí-las por novas...” Frise-se que, para ele, opor-se a isso não significava ignorar que as cidades são entes vivos, sendo a mudança inerente à sua própria natureza. O problema não está aí, mas sim de que mudança se trata, quais são os seus motivos e quais as suas consequências. E nesse particular, dizia ele, “vale lembrar ainda que, muitas vezes a ‘modernização e embelezamento’ da cidade são apenas um pretexto, uma vez que a verdadeira motivação encontra-se nos ganhos obtidos pelos especuladores imobiliários, em prejuízo da comunidade” (os grifos são meus). 

Dvorák não pretendia, para usarmos expressão recorrente entre os defensores do falso progresso, “engessar” a cidade.  Dizia: “Seria certamente injusto e de pouca visão querer impedir que se levasse em conta as novas exigências das grandes cidades. Obviamente, na grande maioria dos casos, não se trata disso, mas de uma modificação tipicamente rotineira, através da qual... (se) destroem antigas partes da cidade sem a menor razão,  onde se poderia, com o mínimo de boa vontade, ter salvado muita coisa que foi intencionalmente destruída para sempre”.

No caso aqui em questão, destaque-se que aqueles que defendem a manutenção das referidas casas não o fazem de maneira indiscriminada. Não são contra qualquer demolição, pois se assim o fossem, ter-se-iam igualmente oposto àquelas que estão ocorrendo, por exemplo, na rua Doutor Timóteo. Os que estão em defesa da Luciana de Abreu são movidos por motivos dignos. Apenas não concordam com a absurda afirmação de que os proprietários daqueles imóveis têm o direito de usá-los como melhor lhes convier. Nem tampouco, como já foram acusados, são prisioneiros do passado, mas sim defensores de um futuro que, no caso, não ignora o valor e a singularidade do patrimônio herdado das gerações precedentes; conscientes de que não temos o direito de destruí-lo e jamais poderemos recriá-lo. 

Pergunto-me o que aconteceria se as antigas casas da Rua Padre Chagas, que individualmente não possuem grande valor histórico e artístico, fossem destruídas, em nome do “desenvolvimento” e do direito à propriedade, cedendo espaço à construção de grandes prédios. Estaríamos, é claro, irremediavelmente destruindo algo cuja importância transcende os limites do bairro em que se encontra. Lugares como esse, com a natureza e a qualidade que têm, não se criam artificialmente, são únicos e insubstituíveis, frutos tão somente das histórias singulares das cidades onde estão. 

Não se trata de tudo preservar. Seria uma atitude tão absurda e inconsequente como achar que só devem ser protegidas as obras de valor histórico e artístico excepcionais. A qualidade de vida das cidades e o significado cultural e antropológico das mesmas não se limitam a essas. Na maioria das vezes, são aqueles lugares não prestigiosos e aparentemente insignificantes os que, literalmente, mais nos tocam, pois com eles podemos estabelecer uma relação direta, próxima e sensível, sem a distância e o peso decorrentes do caráter das obras magnificentes e suntuosas. E a vida na cidade, no seu cotidiano é, ou deveria ser, constituída desses lugares que, como dizia Dvorák, “possuem uma importância incomparável e um significado que atinge a todos os homens, sejam eruditos ou não”.  É preciso pois dar eco à sua voz, fazendo-a renascer e ressoar, hoje ainda mais forte do que antes, posto que, como dizia ele, quem destrói arquitetura de valor patrimonial “é um inimigo de sua cidade e de seu país e prejudica a comunidade, pois as obras de arte públicas não foram criadas para esse ou aquele indivíduo, e aquilo que elas encarnam enquanto obras de arte... recordações ou qualquer outro sentimento, é um patrimônio... Ter consciência disso deve ser uma obrigação de toda a pessoa culta”.

É verdade que Dvorák usou, sobretudo, a expressão “monumento” associada à palavra “patrimônio”, o que é compreensível para sua época. Mas é igualmente verdade que esse último conceito foi sofrendo salutar transformação ao longo do século 20, abrangendo hoje um universo mais amplo e diversificado dos chamados bens patrimoniais. E, tudo faz crer, ele já era sensível a isso e tinha consciência de que o território do patrimônio a ser protegido não deve se constituir tão somente de obras individuais excepcionais: “A proteção de monumentos  não pode se limitar a algumas obras de artes singulares, mas deve incluir tudo o que puder ser considerado um bem artístico público no mais amplo sentido do termo. E as coisas de menor importância geralmente demandam mais atenção do que as mais significativas”.

Façamos coro com o mestre austríaco, reafirmando, em alto e bom tom, que “não se poderá mais responder às questões que a respeito se colocam argumentando com ideias de progresso e novos tempos... Os administradores da cidade têm obrigação de se esforçar para que nenhum sacrifício ou esforço seja poupado quando se trata do destino de antigas construções e áreas da cidade, visto que também lhes cabe cuidar desses assuntos”, não permitindo que bens patrimoniais sejam sacrificados sem necessidade e contra os interesses da comunidade, dando assim prova de boa condução dos negócios públicos.
CULTURA
Fonte: Zero Hora

sábado, 13 de abril de 2013

“SIMCITY”

Desenvolvido pela Maxis e publicado pela EA, chega-nos a última entrada na série de SimCity
Mais uma vez em “SimCity”, somos o “Mayor” da cidade e é da nossa responsabilidade manter a felicidade dos habitantes para que a população cresça e atinja os números necessários para fazer melhorias ao “City Hall”.
Tal como nas edições anteriores, podemos criar áreas residenciais, comerciais e industriais. No entanto, este título traz-nos uma nova adição. Desta vez temos um objectivo maior, a especialização em diferentes áreas como a exploração de petróleo, casinos, ou o fabrico de bens específicos, e cada uma destas especializações leva a um conjunto de objectivos diferentes.
Continua a ser fantástico ver a nossa cidade evoluir, influenciada por diversos factores, e os nossos Sims ocupados com as suas rotinas diárias. Existem grandes melhorias nos sistemas de distribuição de energia e água que tornaram muito mais fácil e agradável a construção da cidade. A rede de abastecimento é distríbuida agora pelas estradas, que por sua vez podem finalmente ser curvas.
Sim City  Estradas com curvas… Yupiiii
Enquanto ”Mayor” podemos monitorizar tudo o que se passa na cidade a partir dos novos painéis de informação, desde a felicidade dos Sims às zonas mais poluídas, para melhorar, sempre que precisamos, o bem-estar dos nossos habitantes.
Mas de todas as novas adições a mais importante é sem dúvida o sistema online. A nossa cidade é agora construída online e os nossos vizinhos são outros jogadores. Podemos fazer trocas de energias, serviços públicos, abastecimentos, trabalhadores e até Simoleans (moeda do jogo).
Embora interessante, o sistema online traz algumas limitações. A construção da nossa cidade é limitada a uma área, o que dificulta muito as coisas quando esta começa a crescer para lá dos 90 mil habitantes; a falta de espaço começa a ser um problema impossível de resolver, para não falar do limite imposto à criatividade do jogador.
Sim CityA cidade da RDB… tinha que ter uma central nuclear.
A intenção da nova versão do SimCity seria incentivar a partilha de recursos entre jogadores, mas na prática ainda deixa um pouco a desejar. Infelizmente, depois do lançamento de “SimCity” os servidores estiveram em baixo durante algum tempo, e quando voltaram muitas funcionalidades do jogo foram desactivadas, como por exemplo o acelerador Cheetah que, segundo os peritos, exigia demasiado do servidor. Outras funcionalidades requerem ainda um melhor aperfeiçoamento, uma vez que o sistema é algo complexo e torna difícil a tarefa de apurar o problema.
Este é sem dúvida um dos melhores (se não o melhor) e mais completos simuladores de cidades criados até hoje. Apesar dos problemas apresentados, que certamente serão abordados em futuras actualizações, temos aqui um jogo capaz de vos prender por horas a fio.
Por FILIPE FERNANDES

quinta-feira, 14 de março de 2013

Cidade


Em 54 segundos, tantas coisas. Tantas simultaneidades, acontecimentos, emoções, perdas e ganhos. E ela, a cidade, sempre inacabada. Porque cidade é projeto, é algo que acontece, que se faz, que se cria e recria. É alquímica. Suas ruas canalizam o ouro das luzes brilhantes que sinalizam riquezas opostas à escuridão, onde dormem alguns, enquanto outros trabalham. Tantas coisas em 54 segundos. Tantas histórias em cada uma dessas luzes que brilham assim, feito vaga-lumes.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Exposição no BDMG Cultural propõe diálogo entre a arte das ruas e das galerias

Mostra reúne colagens e montagens dos artistas Gabriel Nast, Dagson e Haisson

Walter Sebastião - EM CulturaPublicação:06/02/2013 10:44
 (BDMG Cultural/Divulgação)
Um linguagem entre a arte de rua e das galerias e museus. Esse aspecto, explica o curador Rafael Perpétuo, merece atenção nas colagens, montagens e aquarelas que os artistas plásticos Gabriel Nast, Dagson e Haisson mostram a partir de amanhã na Galeria de Arte do BDMG Cultural. O trio é conhecido pelos grafites que realiza nas ruas ou em espaços institucionais. A exposição leva o nome de 'Antropologia para formar uma topografia de um lugar sagrado', expressão do suíço Harald Seezmann, um dos criadores da prática da curadoria, e remete à ideia de estudar manifestações humanas para investigar um lugar (o mundo das artes) tido como sagrado.

Os trabalhos de Nast, explica Rafael Perpétuo, valem-se da colagem para criar representações da cultura brasileira. “São colagens de culturas buscando uma representação do Brasil”, observa, sinalizando a homologia entre tema e técnica. Dagson, por sua vez, usa materiais descartados, especialmente madeiras, para criar peças tridimensionais que dão corpo ao imaginário pessoal que são “quase uma mitologia” da comunidade onde vive o artista. As aquarelas de Haisson, observa o curador, são suaves. Com “construções sem muita ordenação”, que oscilam entre o abstrato e o figurativo, o artista processa memória de infância na favela.

Rafael Perpétuo, falando sobre a relação dos grafiteiros com galerias e museus, conta que a distância entre uns e outros está no fato de os autores não aceitarem a mercantilização da arte e “estruturas sistemáticas” que tendem para formações muito rígidas. Os grafiteiros, na opinião do professor, deveriam também apresentar suas obras em galerias e museus. “O que mostraria que a arte contemporânea é também construída pelo grafite, além de evidenciar o quanto a prática tem conceito e técnica”, observa. Ele explica que, como professor, o que interessa não é exatamente esse debate, mas “construção e aprofundamento de uma história da arte pelos artistas”.

Arena 

O curador é artista plástico e professor do Arena da Cultura. O projeto, depois de interrompido por dois anos para reformulação, fazendo discussões sobre metodologias de ensino, retomou atividades a partir de 2011. O momento atual é de trabalhos que consolidem o programa como uma escola de arte da prefeitura e voltado para arte contemporânea. Ele oferece cursos livres em cinco áreas: artes visuais, música, teatro, dança e patrimônio. Rafael comemora a inserção do último no rol do projeto: “Faltava a Belo Horizonte alguma atividade que formasse cidadãos interessados na preservação da cultura da cidade”.

Antropologia local para formar uma topografia sagrada
Obras de Gabriel Nast, Dagson e Haisson. Galeria de Arte do BDMG Cultural, Rua Bernardo Guimarães, 1.600, Lourdes. A partir desta quinta-feira. Aberta todos os dias das 10h às 18h. Até 3 de março.
Fonte: DIVIRTA-SE

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Prédios desistem de patrocínio em obras Ansiosos por estampar anúncios em troca de investimento em reforma, edifícios como o Copan iniciaram obras por conta própria


Trabalhadores começam a reforma do Copan
+
Trabalhadores começam a reforma do CopanCrédito: Arthur Nobre
Marco arquitetônico do País e cartão postal de São Paulo, o edifício Copan tentava, desde 2010, arrecadar junto à iniciativa privada um patrocínio para o restauro de sua fachada. Seria a primeira grande reforma de sua história e custava, na época, R$ 17 milhões. A contrapartida previa a exposição da marca patrocinadora em 20% da manta de proteção que protegeria a fachada durante a reforma, o equivalente a 10 mil metros quadrados. O Copan só conseguiu iniciar sua reforma na semana passada, agora corrigida em R$ 23 milhões, e sem patrocínio. Ninguém se interessou no investimento.
O caso se torna ainda mais peculiar diante da vigência, desde 2007, da lei municipal 14.223, que transformou radicalmente a paisagem da cidade ao restringir o tamanho do logotipo e nome de marcas nas fachadas de estabelecimentos comerciais e proibiu os outdoors. A Lei Cidade Limpa, como ficou conhecida, inspirou outros projetos no País e balançou o mercado de propaganda, que ficou desnorteado à época de sua publicação. Seu artigo 37, no entanto, autoriza a Secretaria de Cultura a viabilizar anúncios em bens de valor cultural, mediante patrocínio ou investimento. Prédios históricos como o Copan, o Circolo Italiano e o Edifício Esther ansiavam por parcerias, mas elas não vieram.
Algumas marcas fizeram parcerias com o poder público envolvendo exposição em outros itens da paisagem urbana. As diversas ações envolvendo o incentivo ao uso de bicicletas viraram cases referenciais no mercado. O banco Itaú instalou as centrais Bike Sampa – a exemplo do projeto Bike Rio –, com empréstimo de bicicletas em diversos pontos da cidade. Muitos são próximos à Ciclofaixa de Lazer, projeto apoiado pela Bradesco Seguros e Previdência. Quem preferir utilizar uma ciclovia de fato, pode usar a do Ibirapuera, recentemente reformada com patrocínio da Volkswagen. Quem passeasse por lá em dezembro de 2011 notaria que a árvore de Natal do Ibirapuera levava a marca do Santander. Neste 2013, o mobiliário urbano de São Paulo – principalmente abrigos de ônibus e relógios de rua – começa a ser substituído e Ambev e Net adquiriram as primeiras cotas.
Oportunidades
Sérgio Krichnã Rodrigues, diretor corporativo da SP Obras, afirma que a Prefeitura é receptiva a bons projetos de patrocínio: “ainda que a exposição tenha um prazo curto e efêmero, a marca é institucional, será associada a algo valioso para a cidade, estará muito em voga.” A própria SP Obras está reformando um prédio tombado na rua Líbero Badaró, o edifício Sampaio Moreira, que deverá abrigar o gabinete da Secretaria de Cultura. “A mídia exterior superou o formato básico de outdoor permitiu uma série de possibilidades criativas, interativas e inovadoras que melhor conectam a marca e o público”, diz Artur Martins, gerente-executivo de marketing comunicação da Volkswagen do Brasil. “Fundamentalmente informativa, passou a ter um papel de entretenimento e envolvimento com a mensagem exposta.”
Apesar de o mercado admitir que há potencial nesse tipo de mídia, na prática pouco acontece. Segundo Paula Nader, superintendente executiva de marketing do Santander, a efemeridade mencionada pelo diretor da SP Obras é um forte impeditivo. A tendência, segundo ela, é associar-se a projetos de lastro, mesmo que a exposição de marca não seja tão evidente. “Queremos levar benefícios para as pessoas, que sejam relevantes para a sociedade e tenham a ver com nossa missão”, diz. Entre as prioridades de patrocínio do Santander, estão três prédios históricos: um em São Paulo, onde fica a reserva técnica do acervo de arte do banco; e dois centros culturais do banco, em Porto Alegre e Recife. Para Martins, a ação feita na ciclovia do Ibirapuera há poucos anos ia além de um recurso de comunicação institucional: “era mais uma ação da marca em favor do estimulo à qualidade vida por meio do esporte que está presente na estratégia da Volkswagen. Consideramos também a ação como um presente para São Paulo e para os frequentadores do Parque do Ibirapuera”.
Para o executivo, mídias Out of Home viraram alternativas para ampliar o alcance de mídia externa. “Adicionalmente incluímos nos planos de mídia ações em shoppings, cinemas, placas de campo de futebol, exposições de carros em geral e mídia em aeronaves, como é o caso da TAM”, explica. Segundo Paula, naming rights seriam mais interessantes se tivessem maior aceitação no Brasil. “Há muitas restrições aqui, principalmente junto às emissoras de TV e em boa parcela da imprensa, que não mencionam o naming, não dão o crédito”, diz. A menção de nome poderia, em tese, compensar altos investimentos em projetos com prazos curtos como restauros.
Rodrigues não acredita que o texto da Lei Cidade Limpa abra exceções num futuro próximo. Ainda assim, defende que há boas oportunidades segundo as permissões do artigo 37 e que as empresas interessadas poderão abrir precedentes para o País inteiro. “Ter uma publicidade que se harmoniza com o espaço turístico é fundamental. Afinal, cerca de 7,4 milhões de pessoas que utilizam os transportes públicos diariamente passam por esses lugares, levam essas mensagens”, diz, referindo-se especificamente ao mobiliário urbano. As oportunidades de negócios, segundo ele, espalham-se por todos os quadrantes da cidade, não só na região central. “Vai permear a mídia em tudo que é lugar”, conclui.
Fonte: MeioeMensagem