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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Morre Tatata Pimentel


Morre o sagaz Tatata Pimentel



Um dos grandes intelectuais do Rio Grande do Sul, o apresentador, jornalista e professor morreu em casa, aos 74 anos.


O velório será nesta quinta-feira (25/10/2012) no Cemitério São Miguel e Almas, a partir das 8h, e o enterro está previsto para as 17h. Sobrinho de Tatata, Thiago Pimentel de Souza, 28 anos, morava com o apresentador desde os 16 anos e encontrou o corpo por volta das 20h de quarta-feira na Capital. Thiago dormira fora e estranhou a falta de movimento ao voltar ao apartamento.

— Quando cheguei, achei muito estranho que o jornal ainda estivesse na porta. Era a primeira coisa que ele pegava ao acordar. Chamei pelo nome, e ele não atendeu — conta.

Thiago encontrou o corpo de Tatata na cama, e a suspeita é de que tenha morrido enquanto dormia, na noite anterior. O apresentador já enfrentara cirurgias para desobstruir artérias do coração e era fumante. Em novembro, planejava viajar à Europa.

Roberto Valfredo Bicca Pimentel, o Tatata Pimentel, nasceu em 1938 do amor de Alcyr, um carioca que foi parar em Santa Maria para trabalhar na viação ferroviária, por uma professora de Literatura natural de Alegrete. Ficou sete anos na região central até a família se mudar para Porto Alegre. Era um orgulhoso fruto do Colégio Estadual Júlio de Castilhos, que "fez a sua cabeça para a vida inteira".

Após a primeira faculdade, de Artes Dramáticas na UFRGS, concluída em 1959, estudou Letras, Direito, Jornalismo e fez mestrado em Línguas Neolatinas na África, o que o levou também a uma temporada na Europa. Depois, ainda fez doutorado em Teoria Literária. Na Faculdade de Comunicação Social da PUCRS, deixou por 13 anos sua marca como professor do curso de Jornalismo até 2000, quando passou a dedicar-se somente à TV. Até o fim do ano passado, apresentou o programa Gente da Noite, na TVCOM.

Apesar de querido por muitos, espalhava que não tinha amigos. Dizia também que, com mais de 70 anos, se permitia ser arrogante, "porque já deu para viver e aprender muito":

— É que realmente sei mais do que o nível das pessoas com que ando. Ser inteligente me prejudica. Vejo erro de amigos e digo: "Não é isso, está errado!". Mas inimigos, se tenho, não os conheço, porque eles morrem de medo de mim – declarou Tatata, às gargalhadas, em sua última entrevista à revista Donna, de Zero Hora, em janeiro de 2011.

Na mesma entrevista, Tatata foi perguntado se pensava na morte:

— A minha preocupação não é a morte, é quem vai herdar a minha biblioteca.

domingo, 14 de outubro de 2012

Obrigado Karl Popper

Obrigado Karl Popper (1902/1994) por me ajudar a superar ter de conviver com propostas e previsões eleitorais que não são mais do que conjecturas provisórias manipuláveis do campo dos observadores ditos imparciais.

Terminado um ciclo pesado de três eleições -em que muito se falou de sondagens e previsões devidamente e abundantemente cimentadas em comentários políticos, inquestionavelmente, com “fins construtivistas”- parece-me oportuno recordar o pensamento de um dos maiores filósofos do século XX. Claro que a pessoa em causa só serve para reforçar a minha convicção que um dos maiores dramas das sociedades actuais advém da «manipulação do Tempo e dos acontecimentos medidos no seu interior». Facto que se aplica quer se trate de um tempo passado, presente ou futuro.
Nos acontecimentos que meditamos neste post, a forma como estes podem ser reflectidos e projectados num «tempo futuro», do que está para acontecer, da necessidade vertiginosa de aprisionar o que está para vir, condicionando a forma como os acontecimentos deveriam decorrer sem intromissões, é o objecto central da meditação. As previsões são sabotagens premeditadas mas não controláveis dos seus efeitos finais, condicionam a liberdade, fazem da escolha uma confirmação de algo determinado previamente. É a “batota” com roupagens científicas mais subtil que obriga a ter finura intelectual para ver a instrumentalização. Pena é que as análises de Karl Popper sobre a «pobreza do historicismo», com mais de meio século de existência (1957), estejam tão esquecidas.
“Uma previsão é um acontecimento social que pode interagir com outros acontecimentos sociais, entre os quais se inclui aquele que a previsão estipula. Tal como vimos, a previsão pode ajudar a precipitar esse acontecimento; mas é fácil ver que também poderá influencia-lo de outras formas. Num caso extremo, a previsão pode até causar o acontecimento que prevê: é possível que o acontecimento não tivesse sequer ocorrido se não tivesse sido previsto. No outro extremo, a previsão de um acontecimento iminente pode levar à sua prevenção (de modo que se pode dizer que ao abster-se, deliberadamente ou por incúria, de prever o acontecimento, o cientista social pode fazer com que ele aconteça). Haverá sem duvida muitos casos intermédios entre estes dois extremos. O acto de prever qualquer coisa e o acto de se abster de prever podem ambos ter as mais diversas consequências.
Ora, é nítido que os cientistas sociais devem, mais cedo ou mais tarde, tomar consciência destas possibilidades. Um cientista social pode, por exemplo, prever uma coisa, sabendo de antemão que a sua previsão irá causar o acontecimento em causa. Ou pode negar que um determinado acontecimento seja de esperar, impedindo-o assim de se concretizar. E, em ambos os casos, pode estar a respeitar o princípio que parece assegurar a objectividade científica, isto é, o de dizer a verdade e apenas a verdade. Mas embora tenha dito a verdade, não podemos dizer que tenha respeitado a objectividade científica; pois, ao fazer previsões (que acontecimentos posteriores comprovam) pode ter influenciado os acontecimentos fazendo-os tomar um rumo favorável às suas preferências pessoais”.
POPPER, Karl (2007), A Pobreza do Historicismo, Esfera do Caos editores, 1ª ed. pp. 19/20.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Enfeixamentos e Entrecruzamentos

Apresentação de Jornalismo: cenários e encenações, de Carlos Alberto de Carvalho e Mozahir Salomão Bruck, Editora Intemeios, São Paulo, 2012; intertítulos do OI
Este livro reúne reflexões dos pesquisadores Carlos Alberto de Carvalho e Mozahir Salomão Bruck que foram, em oportunidades distintas, apresentadas à comunidade do campo comunicacional em eventos científicos da área. Oferecê-los reunidos nesta publicação cumpre o objetivo de, além de articular os textos resultantes dos objetos e atenções específicas dos dois estudiosos, proporcionar ao leitor reflexões desenvolvidas por eles, perspectivadas aqui a partir do Jornalismo e os cenários em que este se desenvolve, mas também cria, e os complexos processos operacionais e de produção de sentido em que a prática do Jornalismo institui e se realiza.
Por isso mesmo, a estruturação adotada tenta refletir essa visada multipontual: transita pelos cenários epistemológicos do Jornalismo, no Capítulo I, em que se alerta para o fato de que mesmo não constituindo um apanhado minimamente representativo do estado da arte nas pesquisas, o objetivo é o de tentar compreender algumas dimensões deste importante ator midiático em suas relações sociais e nas suas estratégias textuais – narrativas e discursivas. A dimensão epistemológica do Jornalismo é percebida por meio da problematização dos aspectos teórico-nocionais que têm prevalecido nos estudos que se dedicam ao Jornalismo. Pergunta-se em que medida as teorias que buscam compreender o jornalismo estariam operando conceitualmente a partir das próprias dicotomias e simplificações típicas dos processos de produção das notícias, ou melhor dizendo, da maneira como são elaborados e postos em circulação os muitos produtos jornalísticos, dos quais a notícia é apenas a parte mais visível.
Assumimos, enfim, que o desafio, sendo ele epistemológico, é buscar entender em que medida as “pistas” ou sugestões dadas pelos operadores midiáticos estariam sendo trabalhadas pelos pesquisadores a partir da ausência de um questionamento de suas próprias validades ou, ainda, de suas limitações. Talvez o reverso de tal discussão se apresente no artigo seguinte em que refletimos sobre o alheamento do campo profissional jornalístico às noções e saberes produzidos no âmbito acadêmico-teórico. O que se tenta mostrar é que mesmo que os estudos jornalísticos se atenham a aspectos de forte indicialidade advinda do exercício da profissão, os mesmos geralmente são desconsiderados pelo profissional jornalista. Tal abordagem valeu-se das notações e manifestações das entidades de classe que, reiteradamente em congressos da categoria, defendem a formação em nível superior para atuação profissional, como assim também desconhecem que os estudos e pesquisas acerca do jornalismo há décadas vêm oferecendo possibilidades de entendimento acerca das complexidades, conflitos e contradições próprios do campo jornalístico.
Olhar atento
A atenção ao domínio discursivo do Jornalismo substancia o Capítulo II. Ao ocuparmo-nos das estratégias narrativas e discursivas do campo jornalístico, o norte de nossas reflexões aponta para o desejo de compreender as marcas textuais para além da tradição que as situam quase exclusivamente no campo dos gêneros ou estilos jornalísticos – notícia, reportagem, informação, opinião, entrevista – as preocupações com a natureza dos textos que circulam a partir das mídias jornalísticas e que são reapropriados por seus fruidores. Se de um lado, a argumentação pode ser compreendida como condição, é preciso pensá-la também como estratégia de assimilação e adesão ao discurso jornalístico.
Aqui, também uma oportunidade para refletir-se sobre o trabalho do jornalismo que se dedica às narrativas de trajetórias de vida, ou seja, a empresa biográfica. Os traços de uma ingenuidade biográfica, como ao modo de Bourdieu, reforçam a perspectiva de uma abordagem do mundo fundada na utopia da possibilidade de sequestro do que se convencionou chamar de real para instalá-lo em uma narrativa.
A terceira parte, por fim, se propõe a enfrentar os enfeixamentos e entrecruzamentos resultantes dos modos de agir, ver e fazer saber presentes na tessitura jornalística do cotidiano – uma tessitura que não é urdida apenas a partir de jogos de linguagem, que como buscou-se evidenciar nos capítulos anteriores, trazem sempre as marcas sociais, já que a linguagem é parte integrante e mesmo força motriz para as mudanças que as sociedades promovem, tendo nas formações discursivas formas privilegiadas para a percepção das modificações que atingem as mais variadas instâncias da vida coletiva. O jornalismo se realiza por meio de jogos estratégicos também de outras ordens, que envolvem encenações de papéis – como a atribuição que as próprias mídias jornalísticas fazem a si de atuarem com objetividade, isenção, imparcialidade e outros elementos já largamente analisados como “mitos”, como discursos que não resistem a análises mais cuidadosas sobre c omo interesses políticos, culturais, econômicos e tantos outros interferem nas modalidades de construção da informação noticiosa. Jogos de intensos arranjos e rearranjos táticos dos actantes e que se desenrolam especificamente no “campo” do jornalismo ou por meio dele.
Fazendo uma metáfora em relação ao próprio objeto deste livro, mais do que um dizer, quer esboçar-se como um modo particular de olhar para o ambiente noticioso/jornalístico. Daí resulta que, apesar de entendimentos peculiares e relevos resultantes dos interesses particulares de cada um dos autores, o livro se estabelece a partir de aproximações observáveis nos estudos desenvolvidos por ambos nos últimos anos.
***
Prefácio
Muniz Sodré
Neste Jornalismo: cenários e encenações, de Carlos Alberto Carvalho e Mozahir Salomão Bruck, a palavra “cena” adquire, de modo bastante original em estudos de mídia, um estatuto teórico. Em termos estritamente semânticos, ela tem a ver com a parte principal de um palco, mas depois se amplia culturalmente para designar as subdivisões de uma peça teatral e, mais ainda, em literatura, para as situações evolutivas de um enredo. O que fazem aqui os dois autores? Fazem de cenário e encenação vetores teóricos para dar conta da variedade das pesquisas em jornalismo em planos discursivos diferentes, ou seja, no plano implícito da armação conceitual (que designam como epistemologia), no do discurso jornalístico e nos “jogos” textuais, que vão das biografias às reportagens.
Se fosse possível resumir em uma frase as “encenações” levantadas por Carlos Alberto e Mozahir para caracterizar esses planos discursivos, ficaríamos tentados a permanecer na noção de jornalismo como ooperador simbólico das linguagens constitutivas da grande narrativa polifônica sobre o estar-no-mundoquotidiano.
Mas os autores visam, além disso, ao esclarecimento de princípios teóricos subjacentes à reflexão sobre o jornalismo, para tentar distingui-los das dicotomias presentes na prática da produção de notícias. E têm razão: todo e qualquer empenho científico dispõe-se, além da produção de uma teoria em acordo com a experiência, a explicar as noções correntes sobre a natureza do objeto analisado. É fato sabido o quanto a teoria do jornalismo costuma misturar a reflexão conceitual com o seu próprio senso comum corporativo. Daí, a preocupação epistemológica dos autores.
Mas nos interessa particularmente neste texto a idéia de cenário/ encenação, porque alude de modo mais instigante do que o referimento à ciência –– uma vez que aí seria a mídia como um todo o objeto teórico, e não apenas a prática jornalística –– à construção jornalística do acontecimento, portanto, à elaboração do que, no quotidiano, se apresenta como ética social imediata.
De fato, sabemos o quanto o prestígio da imprensa escrita decorre de um compromisso histórico, publicamente “encenado”, com a ética do liberalismo. Cabe-lhe, desde os começos do regime republicano europeu, assegurar ao cidadão a representatividade de sua palavra, de seus pensamentos particulares, garantindo assim a sua liberdade civil de exprimir-se ou manifestar-se publicamente.
Essa função, que é a virtude intrínseca (a “arethe”) da imprensa, lastreia eticamente o pacto comunicacional implícito na relação entre os meios de comunicação e a sua comunidade receptora. Com a prática competente desta virtude, o jornalista justifica historicamente a sua narrativa factual, garantido pela credibilidade que, em princípio, lhe seria outorgada por sua condição (moral) de testemunha primeira dos fatos.
Direção dada
A História tem mostrado, entretanto, o quanto é difícil justificar-se eticamente. Dentro do próprio círculo discursivo da filosofia, registra-se a dúvida poderosa de Wittgenstein (no Tractatus), para quem a ética, a religião, a arte, o reino do pessoal e a metafísica dizem respeito ao que não se pode dizer, ao que transcende o mundo. Textualmente: “O sentido do mundo deve ficar fora do mundo. No mundo, tudo é como é e acontece como acontece: nele não existe nenhum valor... Pois tudo o que ocorre e tudo o que é o caso é acidental (T., 6.41). Por isso, é impossível que existam proposições de ética. As proposições não podem expressar nada mais alto (T., 6.42).”
Mas, atenção: o que Wittgenstein está dizendo é que a ética não se pode dizer, mas se pode mostrar. A ética provém do desejo de dizer algo sobre o significado último da vida, sobre uma finalidade ou um valor absoluto. Embora a proposição ética seja inútil, a existência do enunciado ético mostra tendências “virtuosas” da mentalidade humana, que apontam para os limites da linguagem ou os limites do mundo tal como se nos apresenta.
É também numa virtude que se apoia o produtor de conhecimento do social, o pesquisador acadêmico. Que virtude? A do bem comum, implicado no desenvolvimento de um conhecimento universal sobre a sociedade, portanto, o incremento da racionalidade do social. Mas quando um sociólogo analisa um acontecimento ou um fenômeno social qualquer, seu protocolo de linguagem deve, em princípio, distingui-lo da abordagem que um jornalista faria do mesmo objeto. Ele se obriga a comunicar que seu saber provém de uma “ciência”, apoiada numa experiência de “campo”.
Tal é a garantia epistemológica do pesquisador, do dito “cientista social”. Existe, claro, a subjetividade do cientista social, mas esta deve ficar em segundo plano diante de uma objetividade legitimidade pela reflexão implícita nas condições da análise.
O discurso jornalístico prescinde dessa posição epistemológica, o jornalista não é obrigado a mostrar as condições teóricas de seu relato ou de sua análise. Basta-lhe, no máximo, citar de forma coerente as suas fontes informativas. Ele não tem de lidar, como o pesquisador, com os problemas da relação entre sujeito e objeto ou entre sujeito e sujeito, menos ainda com a grande finalidade (ética) de estabelecimento de um Bem universal. Basta-lhe afinar-se narrativamente com o Bem comunitário.
É essa “afinação” o parâmetro da encenação jornalística que, diferentemente da encenação literária da língua, mira a sociabilidade visível dos sujeitos sociais. Nessa linha, as negociações em torno da enunciação dos acontecimentos, as restituições biográficas da memória coletiva, as tentativas de escapar da superfície dos fatos parecem caminhar resolutamente na direção de uma eticidade a ser ainda pesquisada. O livro de Carlos Aberto e Mozahir Salomão é uma boa medida da complexidade da tarefa. 

Carlos Alberto de Carvalho e Mozahir Salomão Bruck em 18/09/2012 na edição 712
[Muniz Sodré é jornalista, escritor e professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carlos Alberto de Carvalho é professor da Universidade Federal de Minas Gerais e Mozahir Salomão Bruck, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais]
Acesso em 18/09/12.