quinta-feira, 16 de maio de 2013

Entrevista com o presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Marcos Cordiolli

Por Wilame Prado
No início deste ano, o historiador e educador de Maringá Marcos Cordiolli, 49 anos, assumiu a presidência da Fundação Cultural de Curitiba (FCC) com a missão de coordenar a política cultural da capital paranaense na gestão do prefeito Gustavo Fruet. Na bagagem, o maringaense, que se mudou para Curitiba em 1979, leva a experiência como produtor de cinema, assessor da Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados e da Agência Nacional do Cinema.
Via e-mail, ele concedeu uma longa entrevista comentando, dentre vários outros assuntos, sobre a descentralização dos projetos culturais curitibanos e que poderá estimular a vinda de mais espetáculos da capital para Maringá, e vice-versa.
Cordiolli também contou sobre as memórias afetivas que nutre pela sua cidade natal, onde hoje vivem toda sua família, de pais à filha. Hip Hop, cinema, Vale-Cultura e características aconselháveis para se gerir pastas culturais também foram temas abordados na entrevista. Para ele, que reafirma a todo momento a importância do setor cultural para a comunidade, “ser secretário de Cultura é assumir as responsabilidades como um dos artífices da alma da cidade.”
 
Durante exposição no Palladium Shopping Center, em Curitiba, Marcos Cordiolli segura caneca personalizada do artista plástico Rogério Dias
Leio que mora em Curitiba desde 1979, mas nasceu em Maringá. Qual sua relação com a cidade e o que ficou guardado em sua memória dos tempos em que morou aqui, principalmente.
MARCOS CORDIOLLI – Maringá é a minha referência afetiva. A minha família continua morando na cidade: meu pai, minha mãe, meus cinco irmãos, cunhados e sobrinhos. Além de dezenas de tios e primos. E, por estas coincidências da vida, a minha filha, que nasceu em Curitiba, também mudou para Maringá junto com a mãe.
Estudei nos colégios Santo Inácio, Gastão Vidigal e Osvaldo Cruz, instituições importantes na minha formação cultural. Frequentava assiduamente a biblioteca pública municipal. No Colégio Santo Inácio, fui muito estimulado à leitura pela Mirian Ramalho e ao conhecimento da história pela Marta Ramalho. Duas professoras de referência na minha vida.
No Gastão Vidigal fui aluno do mestre Galdino Andrade, que descortinou para mim o mundo maravilhoso da literatura. Até hoje guardo com carinho uma obra de sua autoria, o “Poeira Vermelha”, bela coletânea de contos ambientados à época da colonização.
No que consistirá, ou já está consistindo, esse aprimoramento dos mecanismos de fomento cultural e a criação de instrumentos para dar mais visibilidade às produções locais fora de Curitiba, que o senhor disse ser uma das metas na gestão?
Curitiba produz excelentes obras culturais em todos os segmentos. No entanto, estas obras não conseguem obter a circulação merecida. Tanto na cidade como fora dela. Atuamos, na perspectiva da economia da cultura, em duas linhas, ampliação do público e dos locais de exibição de espetáculos e venda de produtos culturais em Curitiba; e complementarmente estimularemos a circulação de obras curitibanas em outras cidades.
Nesta perspectiva reestruturaremos os nossos mecanismos de fomento fortalecendo o estimulo à circulação da produção cultural. Combinado a essas mudanças criaremos instrumentos para financiar a circulação de obras culturais em outras cidades do Brasil e do exterior; Instituiremos mecanismos de fomento plurianual para grupos culturais de pesquisa e produções de longo prazo. Também estudamos a formatação de um fundo de investimentos com recursos retornáveis para investir em projetos de maior viabilidade comercial.
Além disso, adotamos ações de estímulo, como o conveniamento com cidades brasileiras e do exterior que forneçam apoio logístico e de mídia para os artistas curitibanos.
Com a meta de estimular a ida de espetáculos curitibanos para além da capital, isso significa dizer que há chances de esses espetáculos virem inclusive para Maringá?
Sim. Maringá e outras cidades do Paraná estão em nossos planos, tanto de enviar como receber espetáculos. Temos sempre a preocupação de atuação em mão dupla. As cidades que abrem espaço para os nossos espetáculos podem enviar as suas produções para Curitiba, onde serão muito bem recebidas. Já estamos trabalhando em protocolos de cooperação com diversas cidades, algumas delas do exterior.
O senhor reconhece tantos bons eventos culturais consagrados em Curitiba, como o Festival de Teatro e o Lupaluna, mas diz ser importante descentralizar a programação cultural. Segundo alguns produtores culturais daqui da cidade, também seria preciso haver uma maior descentralização dos projetos culturais em Maringá. Com o conhecimento que tem da cidade, o senhor concorda com isso?
Não conheço adequadamente os circuitos culturais de Maringá para emitir uma opinião. Mas toda cidade precisa desenvolver ações para três campos culturais básicos: a formação, a produção e a circulação de obras dos artistas locais estabelecidos, como uma dimensão da economia da cultura que precisam de apoio para criação, espaços de exibição e reconhecimento social; a atração de espetáculos e artistas de outras localidades, pois a convivência cultural garante o aprimoramento e a renovação da produção local; e o reconhecimento e fortalecimento do que denominamos de cultura viva: os artistas e fazedores de cultura espalhados pela cidade, que geralmente são invisibilizados pelos mecanismos de fomento cultural e desconhecidos da população.
Um levantamento sumário realizado em Curitiba, há cinco anos, indicou a existência de 3.500 agentes culturais na cidade. No entanto, estimamos que o número atual de agentes da culturais do campo da cultura viva possa ser até três vezes superior. A cultura viva é um universo a ser desvelado e reconhecido urgentemente.
Também deve ser desafio de qualquer política pública de cultura propiciar eventos culturais nos diversos espaços da cidade, ampliando a democratização do acesso aos bens culturais e promovendo a cidadania cultural. Para isto, é preciso ações permanentes e estruturantes com focos descentralizados, mas articulados com toda a cidade.
Outra dimensão deste processo é o reconhecimento de toda a diversidade cultural apoiando a cultura de migrantes, de afrodescendentes, de ciganos, de indígenas, da população LGBT, da juventude e da terceira idade.
A promoção da cidadania cultural nas comunidades das grandes cidades é uma ação estratégica de recomposição do tecido social destroçado pelo modelo urbano e midiático contemporâneo. O estímulo da produção e circulação cultural nas comunidades estimula o religamento dos laços sociais e a promoção das relações sociais necessárias para que as pessoas possam construir formas de convívio comunitário. As comunidades que dispõem destes laços sociais conseguem identificar e reduzir a violência contra crianças, idosos e mulheres; combater a pedofilia; inibir a ação do narcotráfico e dispor de mais condições para recompor os ambientes familiares. As comunidades organizadas podem estabelecer um novo modelo de democracia participativa e estimular o controle social sobre as politicas públicas de saúde, educação, proteção social e segurança.
Portanto, descentralização e desconcentração das ações culturais devem orientar as políticas públicas culturais contemporâneas como uma dimensão da cidadania cultural e como uma estratégia para recompor as bases de convívio social.
A ideia do senhor, de viabilizar um cineclube para cada escola estadual de Curitiba, parece ser muito boa. Está esperançoso de que vai dar certo?
Sim. Esta é uma das minhas grandes esperanças. Os cineclubes têm características peculiares e são eixos estratégicos de toda gestão cultural, pois podem ser a base da estruturação das redes culturais colaborativas da juventude. Constituídos como grupos auto organizados, os cineclubes são a porta de entrada para a formação de diversos outros movimentos culturais de música, teatro, dança, audiovisual, leitura e literatura. Além disso, estimulam a produção e a expansão da cultura digital.
Os cineclubes possibilitam todas estas situações pois reúnem pessoas para a fruição cultural combinada aos debates e às experimentações estéticas. Os investimentos são relativamente pequenos, basta um bom acervo de filmes e a combinação de diversas atividades de estímulo.
Em Maringá, assim como em Curitiba, principalmente em bairros e cidades da região metropolitana, há também uma cena interessante do Hip Hop. Por que é tão difícil para as secretarias culturais traçar um diálogo maior com essas manifestações culturais?
O Hip Hop é talvez o segmento mais visível da cultura viva. Eles têm uma força maior pelas características de militância associada a este movimento cultural. Em Curitiba, estamos avançando na relação do Hip Hop, como também estamos abrindo interlocução com o heavy metal, o punk, a arte urbana e outros. Todas as tribos precisam ter direito à cidadania cultural. Estes movimentos possuem características muito peculiares que requerem ações compartilhadas e instrumentos flexíveis de políticas públicas. A gestão pública ainda tem dificuldade para respeitar e reconhecer as necessidades destes segmentos. Em alguns governos conservadores, a situação é ainda mais complexa, pois são tratados até com preconceito.
Qual a sua relação com a fundação antes de assumir o cargo e, na opinião do senhor, o que levou o prefeito Gustavo Fruet a indicar seu nome para a presidência?
Eu atuei com produção executiva de cinema de longa-metragem aqui em Curitiba. Depois atuei na assessoria técnica no Congresso Nacional acompanhando a tramitação de diversos projetos fundamentais, como os do Pró-cultura, do Vale-Cultura, do Plano Nacional de Cultura, do Sistema Nacional de Cultura e a PEC que determina dotações orçamentárias mínimas para cultura em todos os entes da Federação.
Depois, trabalhei na Ancine, Agência Nacional do Cinema, que é uma das maiores agências públicas de fomento cultural da Ibero-América.
Esta experiência com políticas culturais deve ter influenciado o prefeito na escolha do meu nome para presidir a Fundação Cultural de Curitiba.
O senhor afirmou, em entrevista recente, que o próprio prefeito Fruet é um ávido consumidor da cultura local. Considera isso importante para que as coisas aconteçam na pasta ou na fundação?
Um prefeito que é consumidor da cultura local faz a diferença quanto à compreensão da natureza das políticas públicas de Cultura. O prefeito de Curitiba, por conhecer a cena local, tem apoiado irrestritamente nossas ações. O secretariado também tem compreensão muito apurada do modelo de política cultural que estamos desenvolvendo. Eu tenho dito que sou um secretário de cultura privilegiado pelos apoios que disponho no governo municipal.
Digo isso porque, pelo menos em Maringá, o secretario de Cultura, Jovi Barboza, e a diretora de Cultura e presidente do Conselho Cultural, Edith Dias, são pouco conhecidos dos artistas e, conforme seus currículos, nunca atuaram na linha de frente da cultura local. Considera isso um problema ou, como o próprio secretário daqui afirmou, “toda indicação é política” e a experiência dele como gestor pode ser suficiente para o cargo?
Esta é uma pergunta difícil de responder, pois cada situação é peculiar, e, como disse, desconheço o cenário cultural em Maringá. No entanto, assumi recentemente a presidência do Fórum dos Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais, que reúne cidades com mais de meio milhão de habitantes. Nossa intenção é constituir uma entidade forte, que congregue os secretários municipais de todos os municípios brasileiros. Fiquei muito honrado com a missão de liderar este processo.
Assim, acredito que, embora o perfil do secretário municipal tenha importância, é necessário a disposição de construir instrumentos republicanos de gestão, como o reconhecimento e estímulo a circuitos culturais diversificados, a instituição de instrumentos flexíveis de fomento cultural, a consolidação de um quadro de servidores qualificado, a disponibilidade de recursos públicos e funcionamento regular e efetivo mecanismo de controle social, como conselhos e conferências de cultura e audiências e consultas públicas.
Além disso, é preciso que todos os setores da sociedade – como empresários, associações, imprensa – reconheçam a cultura como política pública, assumindo obrigações com o setor que não podem ficar restritas a artistas e produtores culturais.
Vamos falar um pouco de cinema, área que o senhor gosta. Conte como foram os trabalhos na produção de “O Sal da Terra” e “Curitiba Zero Grau”.
Os dois filmes permitiram adquirir grande experiência profissional, pois foram produções muito complexas. Quase todas as sequências foram filmadas fora de estúdios e a maioria delas em estradas e ruas. Para isso, foi preciso um intenso trabalho de planejamento, logística apurada e equipe qualificada. Os filmes também adotaram estratégias de financiamento e circulação inovadoras. Os resultados de qualidade de produto e estética foram excelentes. Os dois filmes foram reconhecidos em premiações importantes no Brasil e no exterior.
Tem algo na gaveta?
Como produtor executivo, normalmente desenvolvo projetos de outras pessoas. Tenho diversos projetos em mente, alguns em parceria, para depois que deixar o governo. No momento, estou participando da formatação de um programa de TV com minha namorada, que é atriz. Um projeto muito interessante e que já está bastante adiantado.
Como avalia a produção de cinema em Curitiba e no Estado?
Curitiba tem uma produção cinematográfica de alta qualidade e em expansão. Está em processo de renovação com uma nova geração, liderada pelo Aly Muritiba, que já conquista reconhecimento crescente no mercado e na crítica. Na Fundação Cultural, estamos atuando no foco da Economia da Cultura para fortalecer toda a cadeia produtiva com a formação e qualificação de técnicos, fomento à formação de especialistas e produtos em diversas áreas e o fortalecimento da Film Comission para apoiar a produção audiovisual na cidade.
Na área de fomento, apoiamos a realização de filmes de curta-metragem e de filmes digitais e estamos incluindo o estimulo à produção de roteiros, de formatos de programas de televisão e o desenvolvimento de projetos. Curitiba caminha a passos largos para se tornar um dos mais importantes polos de produção audiovisual no Brasil.
Quando se assumem cargos de gestão fica difícil produzir cultura?
Fica sim. A FCC tem mais de 500 ações diferentes. Cerca de 100 equipamentos culturais espalhados por mais de 50 pontos da cidade. Centenas de servidores. E orçamento anual superior a 50 milhões de reais. Administra dois fundos de milhões de reais, um de renúncia fiscal e outro de fomento direto. Realiza mais de uma dezena de eventos culturais por dia. Além disso, também acumulo as funções de presidente do Fórum dos Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais e de membro do Conselho Nacional de Políticas Culturais. Além de uma série de outras funções no governo e na sociedade.
Também não abro mão da minha vida pessoal. Frequento diversas atividades culturais. Sou pai de uma garota de 16 anos, a Paula, e tenho um namoro consolidado com a Isadora (Ribeiro), que também tem duas filhas, Maria e Valentine, às quais dedico atenção e afeto. Assim, o tempo é bastante restrito.
Como falei, estou desenvolvendo um projeto de programa de televisão. Realizo com alguma regularidade conferências sobre educação e políticas culturais. Estou publicando crônicas com alguma regularidade e pretendo voltar a escrever sobre cinema. Recebi convites para publicar um volume com textos sobre cinema e para escrever um livro sobre o Plano Nacional de Educação. Não é tanto quanto gostaria, mas é o possível.
Mas ser secretário de cultura é um privilégio. A gestão da política cultural é intervenção na alma da cidade (no sentido junguiano do termo). É articular a produção artística, com a ebulição intelectual, com as mediações da comunicação, convergindo desejos, angústias, sonhos e frustrações. Isto é mais importante quando as cidades perderam as suas ágoras, seus pontos de referência identitárias e loccus de pertencimento. Trabalho muito para que Curitiba volte a recompor o seu sentimento de pertencimento, recontextualize os seus ícones de identidade e volte a ter uma ágora simbólica no centro da cidade. Por isso, estou empenhado em recuperar o Passeio Público, o parque mais central da cidade, como espaço de sociabilidade de todos os curitibanos, sem distinções. E vamos convergir para o Memorial da Cidade, no centro histórico, os grandes debates estéticos e intelectuais. O objetivo é que este dois componham um trio com a Boca Maldita, na Rua XV, um tradicional espaço de efervescência política. Ser secretário de Cultura é assumir as responsabilidades como um dos artífices da alma da cidade.
O que pensa sobre o setor cultural do Estado de modo geral?
Os governos estaduais de maneira geral têm limitações sérias. No Paraná, esta situação é agravada por um antigo modelo que concentrou a grande maioria do equipamentos na capital. Mas creio que, com a nova lei estadual de fomento à cultura, este cenário possa mudar gradualmente.
E de Maringá?
Maringá tem potenciais culturais imensos. Como uma cidade de migrantes, é um caldeirão social que produziu um patrimônio cultural, embora recente, de riquezas e diversidade de alta qualidade. A cidade deveria valorizar e demostrar orgulho dessa característica.
Também é uma cidade que dispõe de empresas fortes, que poderiam fomentar mais intensamente a produção local. Tem bons espaços culturais e uma Lei muito interessante de apoio aos museus.
Conheço alguns projetos de alta qualidade de maringaenses. A cidade tem tudo para acontecer no cenário cultural, basta desenvolver políticas sérias, participativas e estruturantes.
O que pensa sobre o trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Instituto Memória e Vida (IMV), na figura do Edson Pereira e do Marcelos Seixas? Eles sempre falam muito bem do senhor, principalmente dos trabalhos desenvolvidos na Ancine.
Os dois são muito competentes, criativos e têm grande disposição para o trabalho. Compreenderam o potencial de Maringá e resolveram investir na promoção de projetos culturais. A cidade tem sorte de tê-los e deveria reconhecer esta sorte, apoiando-os intensamente. O Captart é uma experiência exitosa e já é referência nacional. Estamos conversando com os dois para nos ajudar a montar um mecanismo similar em Curitiba. Também estamos discutindo a possibilidade de Curitiba aderir ao Museu da Família, outro projeto de grande importância e que deverá, também, ser referência nacional e internacional. E como maringaense, gostaria muito de ver o Museu da Agricultura funcionando.
Leio em seu currículo que o senhor teve também uma grande atuação na área da Educação. Em sua opinião, de que forma é possível ganhar pontos culturais investindo na Educação de uma cidade? Acha que é válida a unção das pastas ou pelo menos diálogo frequente?
Cultura e educação, em particular nos governos municipais, precisam caminhar juntas, embora resguardando as suas respectivas autonomias. Aqui em Curitiba, temos uma situação ideal de articulação entre estas duas secretarias.
A ação cultural nas escolas é uma de nossas linhas principais de atuação. Inclusive estou estruturando toda uma área específica para tratar das ações articuladas entre cultura e educação.
Estamos ampliando a oferta de cultura na escola direcionando diversos eventos e apoiando a ampliação da jornada escolar. Mas temos alertado que há uma diferença entre as obras de arte utilizadas com função didática e as ações culturais para livre fruição. Os espetáculos de teatro, dança, música e cinema, e as ações de leitura, em museus e outros centros culturais, devem ser de livre fruição, sem obrigações ou avaliações.
Estamos ofertando o EduCultura, um programa que visa disponibilizar espetáculo e obras culturais para os professores, pois entendemos que a formação cultural dos estudantes corresponde à proporção desta mesma formação nos professores.
Todos os nossos equipamentos – salas de exibição, museus, o conservatório de música – assim como a Camerata, os coros e as orquestras, terão atividades direcionadas para o público escolar, tanto nas categorias didáticas como de livre fruição.
Na comissão cultural do Congresso Nacional, trabalhou com Ana Hollanda, né? Aprecia o trabalho que vem sendo desenvolvido por Marta Suplicy?
Quando trabalhei no Congresso Nacional, o ministro era o Juca Ferreira. O período que trabalhei na Ancine coincidiu com a gestão da Ana de Hollanda. Aprecio muito o trabalho da Marta Suplicy no Ministério da Cultura. Quando foi prefeita de São Paulo mostrou grande sensibilidade e apreço pela cultura é também uma gestora muito competente. Responde de forma eficiente e rápida às demandas do Ministério.
A Marta demonstrou muito apreço por nosso trabalho e nossos projetos para Curitiba e tem se mostrado uma importante parceira, tanto na FCC como no Fórum dos Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais.
O senhor ajudou na criação do Vale-Cultura, que deverá virar realidade no meio deste ano. O que pensa sobre este projeto?
O Vale-Cultura é um mecanismo fundamental. Enquanto nossos programas de fomento estimulam a produção, o Vale Cultura vai estimular o consumo cultural, a outra ponta do processo.
Em Curitiba estamos trabalhando bastante para que os produtores e artistas da cidade possam usufruir destes recursos. Já estamos estruturando um guia de oferta para circular entre os usuários do programa e preparando os produtores culturais para usufruir da melhor e maior maneira possível.
Alguns criticam o Vale-Cultura porque não contemplará alguns gostos como por games e TV a cabo. Mas, isso é cultura, em sua avaliação?
O Vale-Cultura é um mecanismo novo. Acho bom que ele comece atendendo um rol menor de produtos e serviços, para que possa ser testado e para verificar e compreender o comportamento dos usuários. Num futuro breve, poderá ser reavaliado e poderá incluir outros segmentos de consumo cultural.
Acha que a Lei Rouanet precisa melhorar ou com a criação do Pro-Cultura as questões envolvendo captação via isenção fiscal para apoiar a cultura já estão bem acertadas?
Acredito que precisamos de diversos tipos de financiamento ao fomento cultural. A renúncia fiscal, regulado pela Lei Rouanet e pela Lei do Audiovisual no âmbito do governo federal, e por diversas leis estaduais e municipais, é uma peculiaridade das políticas culturais no Brasil. São mecanismos que precisam de ajustes regulatórios mais flexíveis e que os aproximem dos focos das políticas públicas, em particular nos municípios.
O segundo tipo são os fundos de fomento direto, que financiam a cultura disponibilizando diretamente verba dos orçamentos governamentais. O modelo do Fundo Municipal de Cultura de Curitiba é um dos melhores, pois dispõe de recursos para dezenas de linhas de ação cultural, disponibilizados através de editais regulares. Os modelos do PAR, PAQ e os editais de coprodução internacional mantidos pela Agência Nacional do Cinema, a Ancine, são também modelos eficientes de fundo de fomento direto.
O terceiro tipo é o do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), mantido também pela Ancine, um fundo retornável, que transforma o governo numa espécie de sócio dos produtores de cinema.
Eu também defendo um novo modelo de regulação dos recursos da cultura flexibilizando os formatos de fomento e financiamento para os agentes da cultura viva. É preciso aprimorar os modelos atuais de editais que dificultam e até inviabilizam a realização de eventos com artistas populares. Penso numa forma de fomento direto, com supervisão, semelhante aos modelos de bolsas de pesquisa e pós-graduação da Capes e do CNPq.
Acredito que é necessário, também, a criação de uma instituição financeira específica para gerenciar os recursos da cultura. Uma financiadora que administre os contratos e investimentos dos recursos culturais aprovados por todos os órgãos e instituições vinculadas ao Ministério da Cultura.
Acha que é por meio da Lei Rouanet que definitivamente pode haver mais apoio cultural partindo da iniciativa privada ou há também outras alternativas de parcerias entre o público e o privado?
Eu creio em três modelos de fomentos. O primeiro é o fomento direto, com recurso do tesouro, que possa financiar tanto obras autorais, experimentais e de iniciantes, centrado na formação e renovação estética. Ele é também para estimular a autonomia crescente dos produtores e artistas, para que consigam a auto sustentação financeira pelo trabalho cultural. Por outro lado, os governos municipais devem ofertar espaços de exibição e mecanismo de circulação e apoiar o consumo cultural.
Defendo enfaticamente que o fomento cultural é para o estímulo à criatividade do artista e que devemos superar o preconceito que o artista não pode ganhar dinheiro com um produto cultural financiado com recursos públicos. O produto cultural é uma propriedade do artista que deve dispor dele para gerar trabalho e renda. Os artistas e os produtores devem, no entanto, oferecer contrapartidas à sociedade e disponibilizar os produtos criados como recursos educacionais abertos.
O segundo modelo é o mecanismo de renúncia fiscal, em que os apoios à arte são retirados de impostos e tributos devidos pelos empresários fomentadores. Acho que este mecanismo é importante em alguns setores, que podem ampliar os recursos públicos disponibilizados via renúncia fiscal com contrapartidas efetivas dos fomentadores. E insisto que o foco deles deve estar articulados às políticas culturais vigentes, em particular, nos municípios.
O terceiro modelo é o estímulo a outras formas de investimentos provenientes da inciativa privada, ampliando a participação destes recursos na produção cultural brasileira, sem intermediação dos governos.
O senhor também disse considerar o hábito da leitura ainda pouco difundido em Curitiba. Pensa em algo para melhorar essa questão, que certamente não é só da capital?
O hábito de leitura é pouco difundido em todo o Brasil. Temos pelo menos quatro grandes obstáculos para superar esta situação. O primeiro é que, até recentemente, as políticas de incentivo à leitura nas escolas não eram eficientes. O segundo é o preço do livro, ainda alto em relação ao poder aquisitivo da população. O terceiro corresponde ao fato de que as bibliotecas são em número insuficiente e, de forma geral, mal localizadas, dificultando o acesso dos potenciais leitores ao livros. O quarto é que as bibliotecas ainda são muito burocratizadas, exigindo cadastros, determinando o tempo de empréstimo dos livros e, em alguns casos, constrangem os leitores, publicando listas daqueles que estão em atraso.
Em Curitiba, estamos ampliando o acesso aos livros com as Estações da Leitura, que são pequenas bibliotecas em terminais de ônibus e outros pontos. Também temos as Casas de Leitura, que promovem, por ano, milhares de rodas de leituras em diversos pontos da cidade, um dos programas mais eficientes de estímulo à leitura em curso no Brasil.
Mas o grande impulso para a mudança desta situação, e que está mudando os hábitos de leitura, são as Tubotecas. Trata-se de uma ideia simples e de baixo custo, mas de alta eficiência. Colocamos livros de literatura em estantes nas estações tubo de ônibus: à altura dos olhos, ao alcance das mãos e sem nenhuma burocracia. A pessoa pode ler enquanto espera o ônibus. Se preferir, continua lendo no transporte e até em casa. Pode devolver quando quiser em qualquer uma das estações vinculadas ao projeto.
A procura pelos livros foi muito superior ao projetado e o retorno dos leitores é extraordinário. E o melhor: além de estimularmos pessoas que nunca tinham lido um único livro, que não têm poder aquisitivo, que não frequentam bibliotecas, ganhamos diversos agentes de leitura, com os novos leitores estimulando pessoas do seu convívio à leitura. Diversos dos livros retirados são repassados para outros leitores por estímulo daqueles que o leram.
Chega a ser emocionante a mobilização dos doadores de livros que fazem coletas entre amigos, em escolas e locais de trabalho. A Tuboteca poderá virar um ícone da cidade baseada na educação e no voluntariado.
Curitiba já está lendo mais. Esta é uma ótima notícia, pois a pessoa que lê mais está aberta a frequentar outras linguagens artísticas, como espetáculos musicais e cênicos, exibição de filmes, exposições de diversos tipos e proteger o patrimônio cultural .
Em Curitiba, qual a função da Fundação Cultural, já que também há uma secretaria de Cultura?
Em Curitiba, o presidente da Fundação Cultural tem o status de Secretário Municipal. O regime jurídico da fundação facilita a execução de projetos com maior flexibilidade na gestão de equipamentos, pessoal e recursos.
Acha que Maringá necessita de uma fundação cultural?
Como disse, não conheço o modelo de gestão de Maringá, mas via de regra a criação de uma fundação cultural pode facilitar a execução de projetos com maior flexibilidade. Mas é importante manter a autonomia da gestão da cultura, pois este é um requisito do Sistema Nacional de Cultura e uma necessidade política. Também é importante blindar o orçamento da cultura para que não tenha utilização em eventos religiosos, festas cívicas etc. Atividades constantemente atribuídas a cultura e que, de fato, não o são.
Por fim, se neste momento estivesse conversando com o secretário de Cultura de Maringá, quais conselhos o atual presidente da FCC daria a ele para que seja possível na cidade uma melhora no setor?
Conheci o Jovi Barboza rapidamente num evento em Curitiba. Eu não teria conselho para ele. Mas gostaria muito de encontrá-lo para trocarmos experiências e discutirmos algumas parcerias.
*Parte desta entrevista foi publicada na edição impressa desta quinta-feira (16), no D+, do Diário de Maringá
Fonte: O Diário

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Fotografia

Créditos: Felipe Biasus

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Produtora de Porto Alegre grava episódios de série para a TVE
Equipe da série em ensaio para as gravações
A produtora Epifania Filmes estará na Serra Gaúcha, de 15 a 30 de maio, para a gravação dos quatro episódios da série televisiva “Bocheiros”, sobre a rivalidade entre duas cidades, as fictícias Sereno do Sul (Santa Tereza) e Nova Serração, que se mobilizam em torno do Campeonato Mundial de Bochas que ocorrerá em Sereno do Sul, reabrindo velhas cicatrizes que o tempo não foi capaz de curar. Os Capivaras, time de Sereno do Sul, precisam vencer os arqui-inimigos de Nova Serração, os Guarás. Assim, o campeonato mundial acaba por se transformar em uma disputa regionalizada que aumenta a rivalidade entre as duas cidades.
A série conta com direção de Boca Migoto, da Epifania Filmes, e roteiro de Leo Garcia, Luciano Braga, Marcela Bordin, Thiago Duarte e Tomás Fleck, da Coelho Voador Roteiros. A locação principal é o município de Santa Tereza que, tombada em 2010 como Patrimônio Histórico Nacional, preserva suas construções datadas do início do século XX e mantém características dos antigos vilarejos, combinando com a proposta da série. Algumas cenas serão captadas também no Vale dos Vinhedos e Monte Belo do Sul.
A equipe de “Bocheiros” é formada por mais de 30 profissionais, incluindo a direção artística, área técnica e elenco, que conta com nomes da dramaturgia gaúcha, como Nelson Diniz, Artur José Pinto e Fernanda Carvalho Leite. Além dos jovens profissionais de Porto Alegre, e da Serra Gaúcha, de Caxias do Sul e de Bento Gonçalves. A figuração também contará com participantes da região.
“Bocheiros” é um dos projetos aprovados no edital de incentivo do Fundo de Apoio a Cultura do Estado do Rio Grande do Sul (FAC TVE), em 2012. Os quatro episódios, com 26 minutos cada, serão exibidos inicialmente na TVE, ainda sem data definida.
Até o dia 15, ocorrem os ensaios com os atores no Museu do Trabalho, espaço cedido pela Casa de Teatro de Porto Alegre. As provas de figurino ocorrem na sexta-feira, dia 10, no Barraco Estúdio. A Prana Filmes também é parceira do projeto, cedendo espaço para reuniões de produção da série.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

CCMQ sedia exposição com fotos em lambe-lambe de personagens gaúchos


Mostra estará aberta de 13 a 28 de maio

A Casa de Cultura Mario Quintana é um dos locais que sediará a exposição de fotográfica "Moendo Ruas: nos Caminhos do Linguiceiro". A mostra estará aberta de 13 a 28 de maio, no hall do 2º andar da CCMQ, dentro da programação do 8° Palco Giratório SESC.

A ação faz parte do projeto O Moedor, experiência que já originou o espetáculo O Linguiceiro da Rua do Arvoredo e Linguiceiro, O SHOW. A ação reúne pesquisa sobre assuntos como os crimes da Rua do Arvoredo, a linguagem do expressionismo alemão e estudos de técnicas cênicas e fotográficas.

Além da CCMQ, a Casa de Teatro de Porto Alegre e Museu do Trabalho irão expor fotografias no formado lambe-lambe com a silhueta de personagens porto-alegrenses. O objetivo é chamar a atenção para o Centro Histórico e para os espaços culturais que sediam o Palco Giratório, proporcionando um outro olhar sobre o tema e sobre a cidade.

domingo, 12 de maio de 2013

Elevador

 Acordei instável! Vesti-me de mulher, ou seja, coloquei uma sai justa, curta, uma blusinha de seda, calcei meu lindo salto alto, fiz um coque no meu cabelo longo e fui à luta, era um dia que prometia muito trabalho. Antes de chegar à empresa, passei no shopping. Entrei no elevador completamente descontraída. Como fui uma das primeiras, fiquei bem no fundo, estava lotado.
Foi ai que senti um braço forte me enlaçar na altura da cintura. Uma mão firme apertou meu quadril puxando-me em direção a um corpo quente, rijo, um pouco atrás de mim. Um frio correu do início da espinha terminando no cóccix, desceu perna abaixo e fiquei bamba. Ele me segurava firmemente. Eu sentia um hálito quente na nuca, mais precisamente atrás da orelha. Aquela sensação de frio e calor ao mesmo tempo percorria todo o meu corpo.

Senti os lábios másculos mordiscarem, levemente minha orelha. Meus seios enrijeceram. Fiquei estática, sentindo, cada vez mais, que aumentava meu prazer e que em breve eu explodiria num orgasmo delicioso, rápido e intenso.

Olhei para frente, via vultos, todos concentrados na marcação dos andares. Não pensei em mais nada, me entreguei àquela sensação que há muito havia esquecido e que naquele dia, ao acordar, veio à tona: ser mulher em todo o sentido da palavra.

Meu corpo pedia mais e ele, sem qualquer pudor, ali, no meio de toda aquela gente, estava me dando prazer, muito prazer, digamos de passagem!

Senti quando a mão dele desceu mais um pouco, sempre muito firme, acariciou minhas nádegas. Um arrepio enlouquecedor fazia com que todos os pelos e poros do meu corpo ouriçassem. Naquele momento eu trancava a respiração para que ela não me denunciasse. Tive medo de gemer, de gritar. Imaginei todos se virando para mim e eu daquele jeito, suada, com o rosto pegando fogo. Não, não era só o rosto que pegava fogo naquele momento!

O tempo parece que deixara de passar, simplesmente parou. Na verdade, eu não queria que aquele elevador chegasse ao subsolo onde eu deveria descer para pegar meu carro.

Enquanto isso ele estava colado em mim, éramos um só corpo, um só frêmito de prazer. Quando eu já estava quase chegando lá, no ponto máximo do prazer, ouvi um “plim” de porta abrindo, tive um sobressalto, sai junto com as demais pessoas, sem olhar para trás.

Simplesmente sai, mal segurava as pernas em cima do salto alto. “toc”, “toc”, lá ia eu quase correndo em direção ao carro. Olhei para os lados e nada, ninguém por perto.  Coloquei a chave na porta e entrei rapidamente. Olhei no espelho e me enxerguei louca, feliz, olhos brilhando, rosto corado, cara de quem acabara de fazer uma grande arte.

Liguei o carro e sai, no caminho fui recobrando os sentidos e até hoje me pergunto se foi um sonho, uma alucinação ou se àquele homem existiu e esteve ali vivendo aqueles momentos comigo. Se ele fazia isso sempre, com outras mulheres? Quem sabe era um tarado e mesmo assim eu me entreguei? Talvez, assim como eu,  fora acometido de uma louca tesão?  Algo que surge do nada e, da mesma forma, some sem deixar pistas?

Sei lá!



Vice-Presidente do IPMF

Fotografia

Créditos: Felipe Biasus

Exposição mostra como refugiados do nazismo enriqueceram a vida brasileira

Mostra sobre o exílio em Frankfurt e cidades brasileiras homenageia refugiados que marcaram a cultura e a ciência no Brasil entre 1933 e 1945, um dos períodos mais importantes da história do Brasil.
Diversos prédios no mais puro estilo Bauhaus em vários bairros da zona sul do Rio de Janeiro têm a assinatura do arquiteto berlinense Alexandre Altberg, nascido em 1908. Ele chegou ao Brasil em 1931 e faleceu em Marília, interior de São Paulo, em 2009, aos 101 anos. Na literatura, gerações inteiras de brasileiros tiveram acesso às obras de Thomas Mann, Hermann Hesse e Elias Canetti graças a outro berlinense, o advogado Herbert Caro. Ele desembarcou em Porto Alegre em 1935, onde atuou como tradutor e editor até morrer, em 1991.
Altberg e Caro emigraram para o Brasil, assim como milhares de outros perseguidos pelo nazismo que, entre 1933 e 1945, buscavam uma nova pátria. Depois da Argentina, o Brasil foi o país que mais refugiados do nazismo acolheu na América Latina – entre 16 e 19 mil, estima-se, sendo a maioria de origem alemã. Ironia da História: execrados pelo regime no país natal, foram responsáveis pela mais forte e ampla contribuição cultural, deixando suas marcas para várias gerações de brasileiros nas mais diversas áreas do conhecimento, do saber e da técnica.
A lista é interminável. Wilhelm Wöller, artista plástico, Richard Katz, escritor, Willi Keller, teatrólogo, Anatol Rosenfeld, crítico literário, Hans Günther Flieg, fotógrafo... E todos deixaram marcas profundas. O regente e compositor Hans-Joachim Koellreutter, por exemplo, veio ao Brasil em 1937 trazendo o dodecafonismo e revolucionou o cenário musical. Entre seus discípulos estavam Cláudio Santoro, Guerra Peixe e Edino Krieger, Caetano Velloso e Tom Jobim.
Contribuição para as ciências
Essa grande influência não se deu apenas no campo das artes. Nas ciências, houve inúmeras contribuições. Muitos cérebros migraram para a recém-fundada USP. Foi o caso do zoólogo Ernst Marcus, que chegou em 1936. Responsável por criar um centro moderno para estudos zoológicos na USP, atuou ali até sua morte, em 1968. Ou do químico Fritz Feigl.
Nascido em Viena em 1891, lutou na Primeira Guerra Mundial, doutorou-se em 1920, dando início a uma brilhante carreira, interrompida pela anexação da Áustria. Com a ajuda do embaixador do Brasil na França, Luiz Martins de Souza Dantas, Feigl escapou da Europa com a família e chegou ao Rio em 1940. Ele trabalhou no Departamento Nacional de Produção Mineral, onde inventou um processo para extrair cafeína a partir de concentrado de café, produto raro e valioso para a produção de Coca-Cola em tempos de guerra.
Criador do método conhecido por "análise de toque", Feigl foi um dos maiores químicos analíticos do século 20. Recebeu a cidadania brasileira ainda em 1944 pela dedicação à pesquisa. No Brasil, escreveu 276 obras. Nunca mais quis deixar o país que o acolheu. Hoje, um importante prêmio brasileiro para químicos tem o seu nome.
No campo dos negócios, destaca-se a trajetória do jovem nascido em Essen em 1922 e que deixou a Alemanha numa das últimas levas de refugiados do nazismo. Chegou ao Brasil aos 17 anos, em 1939 e encontrou emprego como datilógrafo em uma empresa de lapidação. Fascinado pelas pedras brasileiras, o jovem Hans Stern descobriu assim a sua vocação para os negócios.
Hans Stern, de caixeiro-viajante a empresário
De caixeiro-viajante, percorrendo o interior, tornou-se empresário e fundou a primeira loja em 1945. Ajudou a popularizar ametistas, esmeraldas e topázios mundo afora. Hoje, existem 160 lojas H. Stern espalhadas por vários países. Detalhe: Stern, falecido no Rio em 2007, sempre se recusou a chamar as pedras brasileiras de "semipreciosas".
Mostra sobre o exílio
"Em uma sociedade até então marcada pelas culturas portuguesa e francesa, esses refugiados tornaram-se mediadores da cultura da Europa central, em especial da Alemanha", diz a historiadora Marlen Eckl, especialista no tema do exílio."Acabaram por dar novos impulsos a diferentes gêneros e estilos de arte e que continuam a exercer influência sobre a vida cultural brasileira até hoje".
Eckl é uma das curadoras da exposição Exílio no Brasil que será inaugurada em outubro na Biblioteca Nacional Alemã (Deutsche Nationalbibliothek) de Frankfurt como parte dos festejos em torno do Brasil, país-tema da Feira de Livros. A mostra será duplicada e virá para o Brasil: a partir de 29 de outubro, para a Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Depois fará um giro por várias outras cidades do país. O visitante poderá ver centenas de documentos, originais ou cópias, sobre os exilados, sua obra e sua influência.
A exposição destacará o corajoso envolvimento de diplomatas como o já mencionado embaixador Luiz Martins de Souza Dantas, de Paris, ou o cônsul brasileiro em Marselha, Murillo Martins de Souza. Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, que trabalhava no consulado de Hamburgo, também faz parte do grupo que conseguiu salvar a vida de centenas de judeus e perseguidos políticos – como foi o caso das 48 pessoas do chamado "grupo Görgen" e que conseguiram escapar graças à ajuda do cônsul-geral de Genebra, Milton Cesar Weguelin de Vieira.
Os refugiados tiveram importantíssimo papel na vida acadêmica brasileira, nas ciências e na pesquisa. Muitos professores que ajudaram a criar a USP tiveram de deixar sua pátria natal, como é o caso do geneticista Felix Rawitscher, o zoólogo Ernst Marcus, o botânico Friedrich Brieger.
Koifman: várias gerações de brasileiros foram influenciadasKoifman: várias gerações de brasileiros foram influenciadas
Amplitude e intensidade da influência
"O que impressiona nesse período é a amplitude da atuação e a intensidade da influência da atuação desses imigrantes sobre várias gerações de brasileiros", concorda o historiador Fabio Koifman, que dirige o projeto Memorial do Exílio, da Casa Stefan Zweig em Petrópolis, outra iniciativa que pretende resgatar as trajetórias dos exilados através de entrevistas e pesquisas em arquivos. O escritor austríaco Stefan Zweig (foto principal) emigrou para o Brasil em 1940.
"Em torno de alguns intelectuais – especialmente Otto Maria Carpeaux, que era austríaco – agrupou-se a fina flor da intelectualidade brasileira, animada e impressionada pela larga cultura e pela profundidade das interpretações desses 'novos brasileiros'", diz Koifman. "Gente vinda de grandes centros da ciência e da cultura foi recebida com entusiasmo pelo meio intelectual e artístico. Já a ditadura brasileira, em especial o ministro da Justiça Francisco Campos e os ministros militares, como Eurico Dutra, bem como o próprio Getúlio Vargas, viram na chegada desses portadores de ideias arejadas e não vinculadas ao ideário autoritário um perigo para o regime, declarando-se, não raro, incomodados pela calorosa recepção."
Apesar da forte presença de alemães ao longo de mais de cinco séculos de história do Brasil, a começar por Hans Staden e passando pelas sucessivas levas de naturalistas e viajantes, é provável que não tenha havido outro momento na história cultural do país tão intenso quanto o período de 1933 a 1945, com a chegada dos fugitivos do nazismo.

DW.DE

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Fotografia

Créditos: Felipe Biasus

Semana de Museus inicia na próxima segunda-feira, 13


A programação segue até o dia 19 de maio em museus de SE
A programação segue até o dia 19 de maio(Foto: divulgação)
Na próxima segunda-feira, 13 de maio, todo o país voltará a atenção para os museus , instituições que trabalham na preservação da memória. Isso porque acontece em todo o Brasil a 11º Semana Nacional dos Museus, um evento promovido pelo Instituto Brasileiro de Museus e que em Sergipe conta com a coordenação da Secretaria de Estado da Cultura (Secult).
A programação contará com exposições, palestras, seminários, oficinas e apresentações culturais e irá acontecer em 15 museus espalhados por todo o estado, em cidades como São Cristóvão, Laranjeiras e Canindé do São Francisco.
O tema deste ano tratará sobre ‘Museus (memória + criatividade) = mudança social’, a partir do qual estudantes, museólogos, historiadores e demais pessoas interessadas na área poderão  refletir, discutir e trocar experiências sobre essa realidade em Sergipe.
Abertura oficial
A abertura oficial do evento acontecerá no dia 13 de maio, às 9h, no Memorial da Advocacia, na sede da Ordem dos Advogados do Brasil em Sergipe (OAB/SE). Na ocasião, acontece a abertura da exposição ‘Alegrai-vos sergipanos: festa, celebração e ritual nos acervos museológicos sergipanos’, com fotos e objetos de diversos museus do Estado. Em seguida, a professora Drª. Cristina Almeida Valença Cunha Barroso do Museu do Homem Sergipano (Muhse/UFS), falará sobre o tema ‘As ações educativas nos museus: criatividade a favor do progresso social’.
A programação segue até o dia 19 de maio com diversas atividades em unidades museais da capital e do interior do Estado. Um dos destaques da programação é o lançamento do catálogo e do documentário sobre a coleção de Jenner Augusto do Museu Histórico de Sergipe (MHS), uma iniciativa da Secretaria de Estado da Cultura (Secult) para homenagear esse grande artista que deu uma significativa contribuição para as artes plásticas no estado.
Oficinas
Duas oficinas serão realizadas durante a 11º Semana de Museus em Sergipe. Uma delas trabalhará o teatro de bonecos e acontecerá em parceria com o grupo de teatro Mamulengo de Cheiroso. A oficina é destinada a professores, estudantes das áreas de pesquisa, museologia, artes cênicas e pessoas da comunidade em geral, e tem carga horária de 12 horas.
O curso será totalmente gratuito e nele o participante terá a oportunidade de trabalhar o teatro de animação a partir de técnicas de confecção de bonecos e interpretação, resgatando a memória coletiva e dando enfoque aos personagens da história de Sergipe, a exemplo de Silvio Romero, João Ribeiro entre outros.
As aulas serão apresentadas na Casa de Cultura João Ribeiro, localizada na cidade de Laranjeiras, entre os dias 13 e 15 de maio, das 14h às 17h. As vagas são limitadas e os interessados devem realizar sua inscrição através do telefone (79) 3179-1916.
Outra oficina que acontecerá durante o evento trabalhará sobre o tema de ‘Fotografia de Obras de Arte’ e será ministrada pelo renomado fotógrafo Carlos Hansen. A iniciativa da oficina é da Secretaria de Estado da Cultura (Secult) em parceria com a Funarte, e que conta com o apoio da Sociedade Semear e Projeto Sergipe In Foco. Ao longo dos cinco dias do curso ocorrerão aulas teóricas e práticas, com uma carga horária de 40 horas. Todas as vagas desta oficina já foram preenchidas
Exposições
Durante a programação da XI Semana Nacional de Museus, que acontece entre os dias 13 e 19 de maio, o público sergipano terá a oportunidade de apreciar diversas exposições que estarão espalhadas por unidades museais em várias cidades do Estado, como as cidades de Aracaju, São Cristóvão, Laranjeiras, Itabaiana e Boquim, e as mostras apresentarão aspectos marcantes de cultura sergipana e personagens importantes da história de Sergipe.
Além da exposição que será aberta durante o primeiro dia do evento e que estará disposta no Memorial da Advocacia, a Semana de Museus levará ao público uma mostra que será aberta no dia 14 de maio, às 9h, no Memorial Raimundo Fonseca, na cidade de Boquim, e que será intitulada de ‘Hermes Fontes: Patrimônio Cultural de Boquim além fronteiras’. Neste mesmo dia, às 11h, o Museu de Arte Sacra de Laranjeiras abre a mostra ‘Corações em Festa’, sobre a procissão do Sagrado Coração de Jesus.
A programação de exposições segue na sexta-feira, 17 de maio, com a abertura da exposição ‘Um museu, uma coleção’, no Museu Histórico de Sergipe, às 10h, na cidade de São Cristóvão. Na ocasião será lançado também o catálogo que retrata essas peças que fazem parte da coleção de Jenner Augusto.
Além de exposições de telas e objetos, estará presente também, uma mostra fotográfica, intitulada ‘Um olhar poético sobre Itabaiana’, desenvolvida por estudantes da cidade, e que estará em cartaz a partir do dia 18 de maio, no Museu Artístico e Histórico de Itabaiana Antônio Nogueira.
Os interessados em participar da programação da Semana Nacional de Museu devem efetuar as inscrições entre os dias 03 e 13 de maio pelo telefone (79) 3179-1916. Vale destacar que as atividades são totalmente gratuitas.
Confira a programação completa da Semana Nacional de Museus aqui.
Fonte: ASN