quinta-feira, 29 de maio de 2014

Fortaleza ganha museu de fotografia

Empresário Sílvio Frota reúne seu acervo de 2.000 fotos históricas em novo empreendimento

 
Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S. Paulo
Fortaleza deve ser primeira cidade brasileira a abrigar um grande museu privado de fotografia até o fim de dezembro. O empresário cearense Sílvio Frota, ligado ao setor imobiliário, acaba de comprar o prédio onde funcionava o Instituto Brasil-Estados Unidos, no bairro de Aldeota, que ocupa uma área de 2.500 m², para abrigar sua coleção de fotografia. Seu histórico acervo tem mais de 2 mil imagens, assinadas por fotógrafos estrangeiros como Edward Steichen, Cartier-Bresson, Steve McCurry, Cindy Sherman e Elliot Erwitt, além de brasileiros, cobrindo várias gerações, de Chico Albuquerque a Cássio Vasconcellos, passando por Orlando Brito, José Medeiros e Otto Stupakoff.
Foto de garota afegã por Steve McCurry, pertencente ap acervo do Museu da Fotografia em FortalezaSteve McCurry/DV
A exemplo do mais antigo museu de fotografia do mundo, o George Eastman House International Museu of Photography and Film, aberto ao público em 1949, em Rochester, EUA, o Museu de Fotografia de Fortaleza, criado por iniciativa privada, será dedicado prioritariamente à educação, abrigando um auditório e biblioteca, além de oficina para workshops com profissionais da área, promovendo ainda debates e projeções de filmes e vídeos. Frota tem talvez a maior coleção relacionada à história recente do Brasil depois do Instituto Moreira Salles – em especial o período que vai da morte de Getúlio Vargas, passa pela construção de Brasília e chega ao crepúsculo do regime militar. Por meio desse acervo é possível acompanhar o drama pessoal de cada presidente do País, flagrado em sua intimidade.
Aula de história. A ideia de criar o museu, aliás, ocorreu a Frota ao atestar que poderia contar a história da ditadura militar brasileira recorrendo apenas a fotos de sua coleção. Fotojornalistas que acompanharam o período, como Orlando Brito e Juca Martins, estão representados por imagens fortes como a do fechamento do Congresso, em 1967, a passeata dos 100 mil realizada um ano depois e o encontro do general Figueiredo com outro ditador, Pinochet, em 1980, além de registros incomuns como o do general Geisel de calção, na praia.
O conjunto dessas fotos forma uma narrativa dramática dos anos de ditadura, mais ou menos como a coleção do Museu da Inocência, em Istambul, mescla as reminiscências do Nobel de literatura Orhan Pamuk com objetos pessoais e dramas sociais, sugeridos por seu romance homônimo sobre a obsessão amorosa de um homem. Em ambos os casos, são museus que "contam histórias". Foi com esse objetivo em mente que Frota organizou outra coleção, fotos de conflitos mundiais, começando com uma série do brasileiro André Liohn, que ganhou há dois anos a grande medalha Robert Capa do Overseas Press Club – pela cobertura da guerra civil na Líbia, que culminou com a morte do ditador Kadafi, em 2011.
Protestos. "A mais recente dessas séries registra as manifestações de protesto do ano passado, feitas por um jovem de 23 anos, Victor Dragonetti, mais conhecido como Drago, finalista do prêmio Esso em 2013", revela o colecionador, cujo acervo tem imagens icônicas do fotojornalismo feitas por profissionais como o baiano Evandro Teixeira e o piauiense José Medeiros, maior nome da extinta revista O Cruzeiro, que Glauber Rocha considerava o "inventor da luz brasileira". A coleção de Frota, aliás, tem vários fotógrafos do Norte e Nordeste brasileiro, o que justifica a intenção de instalar o museu em Salvador e no Recife, após a consolidação do projeto em Fortaleza.
Um desses nomes é o mítico cearense Chico Albuquerque (1917-2000), pioneiro da publicidade brasileira que começou sua carreira como fotógrafo de cena do filme It’s All True (1942), do cineasta norte-americano Orson Welles. Frota tem 22 fotos feitas por ele em Mucuripe, entre elas as dos jangadeiros filmados pelo diretor – que desistiu do filme quando um deles, Jacaré, morreu, em 1942. Albuquerque voltou a Mucuripe dez anos depois, registrando a vida e o cotidiano dos pescadores locais.
Ícone. Outro documentarista que se destaca no acervo de Frota é o francês Jean Manzon (1915-1990), que chegou ao Rio em 1940. Embora lembrado como realizador de filmes que promoviam os feitos do regime militar, Manson deixou na revista O Cruzeiro registros históricos sobre presidentes dos anos anteriores aos da ditadura (JK dormindo no avião, Vargas almoçando com a família). A coleção do empresário abriga uma centena de fotos de Manzon, cujo acervo tem desde imagens feitas por Marc Ferrez no século 19 a ensaios assinados por jovens fotógrafos como Júlio Bittencourt, Yuri Firmeza e Rodrigo Frota, filho do idealizador do museu, que foi assistente do norte-americano Steve McCurry.
Mc Curry, fotógrafo da National Geographic, é lembrado pela imagem da garota afegã de olhos verdes Sharbat Gula, da etnia pashtu, que perdeu os pais na invasão soviética do Afeganistão e foi fotografada em 1992, num campo de refugiados do Paquistão. Essa foi a primeira foto que Frota comprou. Ela integra um acervo com outras imagens icônicas: a de Marilyn Monroe por Elliot Erwitt e a da mãe migrante fotografada por Dorothea Lange (1895-1965) durante a Depressão americana, em 1936, uma das mais reproduzidas da história.
Outra característica que distingue a coleção Sílvio Frota, além das fotos históricas, é a de reunir portfólios de profissionais como Thomas Farkas, Leopoldo Plentz, Cristiano Mascaro, Christian Cravo e Bob Wolfenson. O objetivo, de traçar uma panorâmica da carreira desses fotógrafos, como convém ao novo museu, é também pedagógico.
Fonte: O Estadão

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