Hirã Soares Justo (1)
No senso comum, pensamos em
cultura, geralmente, no formato de produtos culturais, tais como livros,
filmes, peça de teatro, telas de pinturas, musica etc. Porém tudo que o homem
realiza, através da racionalidade humana, em um sentido amplo, também é
cultura.
É necessário distinguir,
portanto, os artefatos culturais do processo mental que os engendra. Todo o
sistema de crenças, leis, religião, esportes, mitos, linguagem, valores morais
e éticos, ciência, tecnologia, costumes é Cultura.
O homem se distingue dos
outros seres da natureza pela capacidade de produzir cultura, pois o ser humano
realiza a sua humanidade na interação com outros homens, de forma coletiva,
produzindo cultura.
Neste sentido, não existe
cultura isolada, muito menos produtos concebidos por um único indivíduo. Mesmo
o último sobrevivente de uma civilização ainda vai ser o representante desta
cultura, não pelo que é, mas pelo que foi formado no processo civilizatório de
inúmeras gerações. A própria linguagem é
herdada de seus antecessores.
O imaginário, a memória
coletiva, as normas, os valores, a forma como o homem concebe a si e reconhece
o outro é fruto da cultura que está imerso.
E a arte, as ditas obras
autorais, é possível de serem aceitas como produto de um artista? O instrumento
do músico foi pensado por ele? Não é a
música escrita em uma partitura que é uma convenção gráfica coletiva? Os sons
que ouviu ao longo de sua existência não tem relação com o fruto de sua criação
ou mesmo serviram de quadro estético que transitou? Só para citar alguns exemplos.
Claro que não podemos
ignorar o papel da contribuição do indivíduo, mas este é um tijolo na construção coletiva da
humanidade, sem esquecer que ele só existe por que é parte indissolúvel dessa
construção.
(1) Presidente do Instituto de Pesquisa em Memória Social,
Mestrando em Memória Social e Bens Culturais.