sábado, 20 de outubro de 2012

VUILLARD


VUILLARD PINTAVA GRANDES-PLANOS que eram, em sua maioria, de interiores, embora por vezes ele também reproduzisse jardins. Em umas poucas obras, buscou combinar a magia da proximidade com o encantamento da distância, representando um canto de aposento de cuja parede pendia um quadro, seu ou alheio, contendo uma paisagem com árvores distantes, montes e céu. Essa era uma oportunidade para tirar o máximo efeito de ambos os mundos - o telescópico e o microscópico - com um único golpe de vista.

De resto, só me posso lembrar de um número reduzido de paisagens em grandeplano, pintadas por artistas europeus modernos. Há um estranho Bosque por Van Gogh, no Metropolitano de Nova York; o maravilhoso O valezinho de Helmingham Park, de Constable, na Galeria Nacional de Arte Britânica; um mau quadro de Millais - Ofélia
- que, apesar de tudo, é encantador graças a seu intricado de folhagem estivai vista de muito próximo. E ainda me recordo de um Delacroix que vi de relance, há muito tempo, em uma exposição de penhores - um tronco, com sua ramaria coberta de flores, retratado de muito perto. E claro que deve haver outras obras, mas, se outras vi, delas já não me lembro.

Seja como for, nada há no Ocidente que se equipara às reproduções em grandeplano da Natureza, de autoria dos pintores chineses e japoneses: um galho de ameixeira em flor; um palmo de haste de bambu com suas folhas; passarinhos entre arbustos, vistos a pouco mais de uma extensão de braço; flores, folhagens, aves, peixes e pequenos mamíferos de todas as espécies. Cada pequeno ser vivo é representado como centro de seu universo, como a razão de ser - segundo sua própria concepção - para a criação deste mundo e de tudo que nele existe; cada um deles lança sua própria declaração de independência do imperialismo humano e, por ironia, zomba de nossas absurdas pretensões de estabelecer normas puramente humanas para a conduta dos processos cósmicos; cada um repete para si mesmo a sublime tautologia: sou o que sou.

A Natureza, nas distâncias médias, nos é familiar - tão familiar que somos levados a crer que conhecemos realmente tudo a seu respeito. Já se a examinarmos muito de perto, a uma grande distância ou sob um ângulo pouco comum, ela nos parecerá perturbadoramente estranha, de uma beleza que ultrapassa todo o nosso poder de compreensão. As paisagens em grande-plano, pintadas pelos artistas chineses e japoneses, são outras tantas demonstrações de que o samsara e o nirvana são uma mesma coisa, e de que o Absoluto se manifesta em tudo o que existe. Essas grandes verdades metafísicas, e até pragmáticas, foram representadas pelos artistas do Extremo Oriente, seguidores da doutrina Zen, de forma peculiar. Todos os objetos próximos eram reproduzidos isoladamente sobre o papel ou a seda virgem. Assim isoladas, essas figuras fugazes adquirem uma espécie de Personalização absoluta. Os artistas ocidentais têm empregado esse mesmo artifício ao pintar figuras sacras, retratos e, por vezes, motivos naturais a distância. O moinho de Rembrandt e os Ciprestes de Van Gogh são exemplos de paisagens distantes em que se conseguiu realçar ao máximo determinado objeto, isolando-o dos demais. A força mágica de tantas águas-fortes, desenhos e pinturas de Goya pode ser atribuída ao fato de suas composições constarem, quase sempre, de umas poucas silhuetas, ou mesmo de uma única, destacando-se contra o fundo vazio. Essas formas silhuetadas possuem o dom visionário do valor intrínseco.

fonte: livro As Portas da Percepção & Céu e Inferno de Aldous Huxley - Apêndice V 

Nenhum comentário:

Postar um comentário